sexta-feira, 18 de maio de 2018

Comunicação surdocega


A COMUNICAÇÃO COM OS/DOS SURDOCEGOS E COMO A LINGUAGEM EMERGE DO MUNDO



Hildo Honório do Couto

Universidade de Brasília

1. Introdução
Este ensaio trata de duas importantes questões nos estudos da linguagem. A primeira é o difícil processo de se comunicar para os surdocegos. É muito diferente do que acontece na comunicação dos/com os surdos, para o que existe há muito tempo as línguas de sinais, no Brasil a Libras. No caso dos cegos, por disporem da audição, podem aprender perfeitamente a língua oral. Para a escrita, eles dispõem da grafia braile, mediante a qual podem escrever e ler textos sobre todo e qualquer assunto.
Surdocego não dispõe de nenhum dos dois sentidos mais apropriados para a linguagem, ou seja, em primeiro lugar a audição e, em segundo, a visão. Como o olfato e o paladar são inapropriados para a interação comunicativa, só lhes resta o tato. Ora, esse sentido só permite um contato imediato com o entorno, com o mundo. Por isso, os cuidadores de surdocegos precisam lançar mão de diversos meios para conseguirem se comunicar com eles. Uma das estratégias é levá-los a ter contato com a coisa e depois tentar criar algum sinal tátil para representá-la.
A despeito das enormes dificuldades de se ensinar algum modo de se comunicar aos surdocegos, há casos na história de alguns deles que chegaram a se expressar muito bem, inclusive tornando-se palestrantes. Afinal, eles não são desprovidos da capacidade de vocalização. O grande problema é conseguir associar sinais às coisas que eles representam no ecossistema linguístico, que se desdobra em comunidade de língua e comunidade de fala.

2. A relação entre linguagem e mundo
"A linguagem cria o mundo". É mais ou menos isso que apregoa o construcionismo linguístico, que eu tenho chamado de verbocriacionismo. Trata-se de uma posição mais teológica do que linguística ou ecológica. Tanto que ela está exposta bem no começo do livro Gênesis, da Bíblia, onde se vê que o início da linguagem se deu por fiat. Lá está dito que após criar o "céu" e a "terra, Deus viu que ela estava nas trevas, por isso, dixitque Deus fiat lux et facta est lux (1,3), ou seja, "Deus disse faça-se a luz e a luz foi feita", chamando a luz "dia" e as trevas "noite". Após ter criado essas quatro realidades (céu, terra, dia, noite) e lhes dado nome, Deus dividiu o dia em "tarde" e "manhã". Ele continuou separando a terra em "terra firme" e "mares". Criou ainda "verdura, plantas germinadoras de semente e árvores frutíferas, que deem fruto segundo a sua espécie e árvores cuja semente esteja nelas mesmas" (1,11). Logo em seguida, criou luzeiros no firmamento do céu, como "o luzeiro maior para presidir o dia" ("sol")" e "o luzeiro menor para presidir a noite" ("lua") e as "estrelas", além das "estações", os "dias" e os "anos'" (1,14 a 1,16). Após ter criado também animais terrestres e aquáticos, do barro (2, 7) Deus criou o homem ("varão") "à sua imagem" (1, 27), a que deu o nome de "Adão". Em seguida, Deus tirou uma costela de Adão e criou uma companheira para ele – uma "virago", feminino de varão –, à qual Adão deu o nome de "Eva".
Depois que tudo isso já estava criado, Deus delegou a Adão a tarefa de continuar dando nomes a tudo mais que foi criado, inclusive à virago, fazendo dele um nomoteta, “o primeiro criador da linguagem” (Eco 2002, p. 26). “Tendo, pois, o Senhor Deus formado da terra todos os animais terrestres, e todas as aves do céu, levou-os diante de Adão para este ver como os havia de chamar; e todo o nome que Adão pôs aos animais vivos, esse é o seu verdadeiro nome. Adão pôs nomes convenientes a todos os animais (domésticos), a todas as aves do céu, e a todos os animais selváticos” (2, 19-20).
Aparentemente só o fiat lux parece ter sido verbocriacionista. No entanto, ao criar as coisas supramencionadas, Deus já tinha uma ideia delas, ou seja, já tinha seu conceito. Com isso, de fato todo o processo de nomeação mencionado acima pode ser considerado semasiológico, vale dizer, verbocriacionista. EXPLICAR MEHOR.
Até aqui só vimos uma das facetas da linguagem, a relação palavra-coisa, a nominatio rerum (o dar nome às coisas). Tanto Deus quanto Adão primeiro se viram diante de algo e, só depois, lhe deram nome: primeiro a coisa; depois, o nome. Mas, como salienta Eco (2002, p. 62-67), ao falar da interpretação desses fatos por Dante Alighieri no De vulgari eloquentia (1303-1305), houve também curtos diálogos, embora não se saiba em que língua eles se deram, ou se foi em algum tipo de linguagem da natureza, como trovões, relâmpagos, ventos etc. (Eco, 2002, p. 62-67). Alguns dos minidiálogos se deram entre Deus e Adão (3, 9-12), entre Deus e Eva (3, 13), entre Eva e a serpente (3, 1-5) etc. Entre Deus e a serpente só há informação do primeiro à segunda. Curiosamente, não há diálogos entre Adão e Eva. Em Eco (2002, p. 25-28, 62-67) há interessantes comentários sobre essa linguagem adâmica.
A exposição da linguística adâmica continua no evangelho segundo São João. Ele começa dizendo que “no princípio existia o verbo, e o verbo estava junto de Deus, e o verbo era Deus (1, 1). Estava no princípio junto de Deus; Todas as coisas foram feitas por ele; e sem ele nada foi feito (1, 2)”. A argumentação linguístico-adâmica culmina no versículo 14, em que se lê:  “E o verbo se fez carne, e habitou entre nós (1, 14)”. Trata-se da expressão mais direta do verbocriacionismo de que tenho notícia. De qualquer forma, a parte do Gênesis em que primeiro se cria/apresenta a coisa e só depois se lhe dá um nome tem tudo a ver com a comunicação com os/dos surdocegos. No entanto, a parte que se criou por fiat se distancia dessa realidade, uma vez que inverte o processo: em vez de seguir o percurso onomasiológico (da coisa para o nome), parte do semasiológico (do nome para coisa). Essa inversão do processo normal pode vista de modo mais flagrante em São João (1,14), em que se diz literalmente que “no princípio existia o verbo”, ou seja, primeiro surgiu a palavra, e “o verbo se fez carne”, ou seja, a palavra criou a coisa.
De acordo com o verbocriacionismo da linguística adâmica, as relações entre língua e mundo ficariam como se vê na figura 1, tomando-se T por mundo, embora, na verdade, P também seja parte dele. Na linguística ecossistêmica esse P natural é representado por P1, a fim de distingui-lo do P2 do ecossistema mental e do P3 do ecossistema social da língua (cf. Couto 2015). Linguístico-ecossistemicamente, sempre que se fala em relações entre língua/linguagem (L) e mundo (M), entende-se por M o seguinte: M = T + P1.
L
/   \ 
P-----T
Fig. 1

Já em Couto (2009), foram apontadas duas hipóteses sobre a relação entre linguagem e mundo (L-M). A primeira é a da linguagem adâmica, brevemente resumida na figura 1. De acordo com ela, nossa relação com o mundo está mediada pela linguagem, o que ficaria mais claro linearizando-se as relações entre P, L e T, o que dá P—L—T. De acordo com essa concepção, não há relação direta entre as pessoas (P) e o mundo (T); ela é sempre mediada por L. Na teoria de Humboldt e de seu seguidor Leo Weisgerber, que também são verbocriacionistas, a linguagem seria um entremundo (Zwischenwelt) entre a população e o mundo, ou seja, é ela que cria o mundo. Por isso, não temos acesso direto a ele; nada que não tenha nome será percebido, já que o mundo foi criado “linguisticamente” por fiat. Basta substituirmos “o verbo se fez carne” por “a palavra criou a coisa”. O que é pior, assim formulada, essa hipótese deixa implícito que a língua é uma coisa que se relaciona com outra coisa, o mundo. Para não cair nessas duas esparrelas – verbocriacionismo e reificação da língua –, podemos colocar a questão da forma que está sugerida na figura 2 mais abaixo, que é a representação da linguística ecossistêmica.
O mito da origem da linguagem exposto no Gênesis mostra que a linguagem teria surgido a partir de Deus, mesmo que ele tivesse que entregar aos humanos a tarefa de terminá-la. Essa origem teológica da linguagem, por incrível que possa parecer ainda subsiste em muitas teorias linguísticas atuais. No entanto, ela se encontra no polo diametralmente oposto ao da teoria da linguística ecossistêmica, segundo a qual são os membros de P, convivendo em seu T que criam a própria linguagem, como está representado na figura 2. Eles a criam para facilitar a interação entre eles e o mundo, bem como entre eles mesmos, como se pode ver em qualquer texto mais recente dessa teoria, além do recém-mencionado. Assim sendo, a linguística ecossistêmica subscreve, dessa glotogenia, apenas o que fez Adão ao dar nome às coisas do mundo (onomasiologia) a fim de poder falar delas (semasiologia), inicialmente com Eva e depois com os filhos. Na formação dos pidgins e crioulos esse processo pode ser observado praticamente in vitro (Holm 1988, 1989; Couto 1996).   
Sabemos que só há linguagem/língua se houver um grupo de pessoas convivendo em algum lugar que a formem e usem. Por outras palavras, para haver uma língua (L) é preciso que haja um povo (P) que a use. Tanto que Mufwene (2001) afirma que a língua é uma espécie parasita da população. A população, ou povo, por seu turno, só existe se seus membros estiverem convivendo em algum lugar, o seu território (T), como se vê no tripé do ecossistema linguístico apresentado na figura 2.

P
/   \
L---T
Ecossistema Linguístico
Fig. 2

A representação da figura 2 implica que a existência da língua pressupõe a existência do povo e o povo pressupõe território. Portanto, a língua só se relaciona ao mundo via falantes. Isso fica visualmente explicitado linearizando-se a representação, que daria L—P—T. Para mais detalhes sobre a linguística ecossistêmica, pode-se consultar Couto (2015).
Aproximemos um pouco mais o foco sobre os dois tipos de interações ecológicas (organismo-mundo, organismo-organismo), no caso, como elas se manifestam na ecologia linguística (outro nome para linguística ecossistêmica). Essas relações estão representadas na figura 3.

Fig. 3

 Na figura 3, vê-se que grande parte das interações de uma pessoa p1 qualquer do ecossistema linguístico com outra pessoa (p2) – interações representadas por (a, a') – existe para mostrar alguma relação dessas pessoas com o mundo (M). Ecolinguisticamente, as interações entre p1 e p2 (a, a') são chamadas de comunicação, ou interação comunicativa, enquanto que as interações entre p1 e/ou p2 e o mundo (b, b') são conhecidas pelos nomes de referência, ou interação referencial. Esses dois tipos de interação nunca ocorrem isolados: eles são as duas faces da moeda da linguagem.
Depois de muitas interações do tipo a, a’ e b, b’, passa a haver um consenso entre p1 e p2 – e os demais px da comunidade –, sobre essas inter-relações, momento em que o fenômeno do mundo percebido por intermédio de um ou mais de um dos cinco sentidos passa a ser um conhecimento compartilhado. Nesse momento, o fenômeno percebido e identificado recebe um nome, que passa a ser um signo (S) dele. Esse acréscimo ao exposto na figura 3 está representado na figura 4.

Fig. 4

S = signo, palavra
a, a’ = interação entre pessoas à comunicação, interação comunicativa
b, b’ = interação com o mundo (natural, mental, social) à referência, interação referencial

Veremos que, no caso do surdocego o processo de aquisição de linguagem é muito parecido com o dar nomes na linguística adâmica na parte em que primeiro se cria/apresenta a coisa e depois se lhe dá um nome. Primeiro é preciso que ele identifique algo do seu mundo para depois alguém lhe mostrar algum sinal que evoque essa coisa (interação pessoa-mundo: referência, interação referencial). Depois disso, é possível interagir com essa pessoa usando o sinal em questão e evocando a coisa em questão (relação pessoa-pessoa: comunicação, interação comunicativa). Vale dizer, por si só a língua não se relaciona nem com o mundo nem com nada, pelo simples fato de que ela já é interação, não uma coisa que possa interagir com outra. Quem se relaciona são as diversas pessoas que compõem P. As duas interações são bidirecionais, ou seja, cada uma dessas linhas pode se desdobrar em duas, uma de pessoa para M, outra na direção de M para pessoa.
Vimos que a linguagem adâmica apresenta as duas dimensões ecológicas básicas das linguagens em geral e da língua em especial: a relação pessoa-mundo ou interação referencial – geralmente confundida com relação língua-mundo ou palavra-coisa –, e a relação pessoa-pessoa ou interação comunicativa. Porém, se partirmos da proposta da linguística sistêmico-funcional de Halliday (1975, 2014), notaremos que fica faltando uma dimensão, que esse autor chama de “metafunção textual”, o texto-discurso; as outras “metafunções” hallidayanas são a “ideacional”, equivalente à interação referencial, e a “interpessoal”, equivalente à interação comunicativa. Na linguística ecossistêmica, o texto (T), ou melhor, texto-discurso é visto como um ponto na rede da interação comunicativa. Como se vê na figura 5, ele está relacionado ao produtor texto (F), ao receptor (O), à sua expressão física (E) e ao conteúdo (C) que a expressão manifesta. Tudo isso no cenário da ecologia da interação comunicativa, que compreende ainda tudo que se relaciona a F (ELE1) e a O (ELE2), como proposto em Couto (2017: 25).  

                                                        Fig. 5

Em síntese, a linguística ecossistêmica vê o texto (T) não apenas nas interações da dimensão ideacional (E-T-C) e nas da interpessoal (F-T-O). Ele está imbricado em todos os componentes da “casa do texto” apresentada na figura 5. Com isso, não há o perigo de reificá-lo, como parece acontecer em praticamente todas as versões do estruturalismo, inclusive a linguística sistêmico-funcional. Afinal, texto é um nó numa rede de interações.
No caso específico da relação linguagem-mundo, primeiro é preciso que haja algo sobre o que falar, para depois se falar, pelo menos nas situações prototípicas. O de que se fala não precisa ser, e frequentemente não é, algo do mundo físico, natural. Pode ser também do mundo mental ou do social. Às vezes abrange duas dimensões, como a psicossocial ou a psicofísica. Mas, pode também abranger as três, e falar de algo de natureza biopsicossocial. Diante de tudo que acaba de ser visto nesta seção do artigo, podemos contraditar a asserção que a abre e dizer com bastante cautela que, como já está implícito no início da Ideologia alemã, de Marx e Engels, o mundo cria a linguagem.

3. Formação de conceitos e lexicalização
As figuras 3 e 4 mostram a formação de conceitos de modo bastante sumário. Como veremos na ampulheta da lexicalização, representada na figura 5 abaixo, é preciso aproximar mais o foco e destrinçar o processo em pormenores mais finos.

Ampulheta da Lexicalização

Fig. 5

Nessa figura, o triângulo inferior representa o momento psicofísico da percepção (sensação, identificação), cujo resultado é o percepto (unidade de percepção). O triângulo superior mostra o momento psicossocial da conceptualização (compartilhamento, lexicalização), cujo resultado é o conceito. Essa figura foi proposta originalmente em Couto (2007: 128). Se lermos o processo de baixo para cima – da sensação para a lexicalização –, temos o percurso onomasiológico; no sentido contrário – da lexicalização para a sensação –, o percurso semasiológico.
A sensação se dá por um ou mais de um dos cinco sentidos, embora na maioria dos casos um ou alguns deles sempre atue(m) mais do que os demais. Como se pode ver em Santaella (2012: 1), "provavelmente devido a razões de especialização evolutiva, 75% da percepção humana, no estágio inicial da evolução, é visual. Ou seja, a orientação do ser humano no espaço, grandemente responsável por seu poder de defesa e sobrevivência no ambiente em que vive, depende majoritariamente da visão. Os outros 20% são relativos à percepção sonora e os 5% restantes aos outros sentidos, ou seja, o tato, o olfato e o paladar". Desses 5%, talvez 4% seja para o tato, sobrando 0,75% para o olfato e 0,25% para o paladar. Infelizmente, essas estatísticas não são muito confiáveis. Tanto que em sites dedicados ao assunto, já vi também os seguintes números: visão à 83,0%; audição à 11,0%; olfato à 3,5%; tato à 1,5%;  paladar à 1,0%. Tirando uma média das duas estatísticas, teríamos:

visão               79,0%

audição           15,5%

tato                 2,75% 

olfato              2,125% 

paladar           0,625%.

Os números variam, mas, se ignorarmos que na segunda estatística olfato aparece com 3,5% e tato com 1,5%, a tendência geral permanece. O sentido que de longe domina em nossas relações com o mundo é a visão, vindo em segundo lugar a audição. O olfato vem em penúltimo lugar (com 2,125) e o paladar em último (com 0,625). Creio que a última estatística (média das duas anteriores) reflete a tendência geral, com o tato no lugar que lhe cabe, o terceiro. Em termos de percepção à distância o olfato certamente tem um alcance maior do que o tato, mas, em termos de quantidade de nossas interações com o mundo, o tato parece ganhar de longe do olfato. É por intermédio dele que o feto tem seu primeiro contato com o entorno. É ele que permite aos cegos terem uma linguagem escrita (braile) substituta da linguagem oral e que lhes permite ler e produzir textos sobre todo e qualquer assunto. 
Alguns fatos saltam à vista diante da primeira e da terceira estatísticas. O primeiro é que o sentido em que se baseia a esmagadora maioria do que chamamos de "linguagem natural" (as línguas orais), não é aquele que domina em nossa percepção do mundo, a visão (79%), mas o que vem de longe em segundo lugar, a audição (15,5%) – Steven Pinker apresenta algumas razões para isso, como veremos mais abaixo –. Segundo o Ethnologue, no mundo existem cerca de 7.102 línguas orais e 137 línguas de sinais (Romaine, 2018: 40), ou seja, apenas 1,9% das línguas do mundo se manifestam pelo canal visual. Quanto aos surdocegos, sua interação com o mundo e sua comunicação com as pessoas de seu meio se dão pelo tato, o sentido que vem estatisticamente em terceiro lugar, mas sem o recurso adicional da audição, disponível para os cegos. Tanto que eles dominam a língua oral à perfeição.
Os sentidos da percepção à distância são a visão e a audição. A visão tem a ver com a velocidade da luz, cerca de 299.792.458 m/s; audição, com a velocidade do som, aproximadamente 340 m/s. É por isso que vemos um relâmpago e, só algum tempo depois vem o trovão. Em terceiro lugar vem o olfato, perceptível a uma distância bem menor do que a do som. A percepção tátil só se dá pelo contato físico, o que acontece também com o paladar. Como disse Da Sacco (2007, p. 41) "o mundo da pessoa surdocega se restringe apenas ao raio do alcance de seus braços", ou seja, daquilo que consegue tocar. Talvez esses números expliquem porque a maioria das línguas têm por canal a audição e a visão, ficando o tato em terceiro lugar, para os surdocegos, que dispõem só dele. O olfato também permite alguma percepção sem contato, a pequenas distâncias. No entanto, ele é inapropriado para a interação comunicativa, pois, para formular uma mensagem a enviá-la pela via olfativa seria necessário manipular algo que exale algum odor, com o que teríamos uma comunicação bastante onerosa, além de limitada. Mais difícil ainda seria duas pessoas comunicarem entre si pelo canal gustativo, pois, para cada mensagem-sabor, seria necessário colocar alguma coisa na boca do receptor.
A despeito de tudo que acaba de ser dito, e talvez por isso mesmo, o tato é o sentido da comunhão, pois revela mais proximidade, contato físico, como no “contágio emocional” de Schaff (1968: 127-13). Esse autor apresenta diversos casos que entrariam nessa categoria de comunicação-comunhão, como a da mãe com o recém-nascido. Visão e audição são menos comuniais nesse sentido, um pouco menos do que o olfato e muito menos do que o paladar.

4. A interação dos surdocegos com as pessoas e com o mundo

4.1. Maud
Maud Rainey Scott nasceu surda em 1895 e perdeu a visão logo depois. Em 1900, quando sua primeira instrutora Janie Watkins começou a trabalhar com ela, Maud não conseguia andar nem ficar de pé, seus hábitos eram de um bebê e seu desenvolvimento mental era próximo ao de uma criança de 6 meses. Permaneceu deitada no berço dormindo dia e noite por 6 anos, ou então balançando-se freneticamente. Alimentava-se basicamente com leite, recusando qualquer outra coisa. Comer e beber eram seus únicos desejos, que ela obtinha chorando, gritando e esperneando. Maud brincava com os próprios dedos, mas não dava nenhuma atenção a objetos postos nas suas mãos ou no colo.
Maud tem uma mente viva e equilibrada, mas é preguiçosa. Tão preguiçosa e voluntariosa que precisava precisa sentir uma pressão firme, mas suave. Do ponto de vista do temperamento, ela é muito nervosa e sensível. Ela pode mostrar-se doce a afetiva. Sua cuidadora Janie Morris sentiu que precisava impor-lhe limites. Ela reagia violentamente à mais leve oposição de alguém, batendo a cabeça no chão, ou no ferro da cama com as mãos ou com qualquer coisa que pudesse pegar. Durante um certo tempo, resistia a tudo que Janie fizesse para ela ou com ela. No entanto, com o tempo Maud começou a aprender que às vezes precisava concordar com Janie, mas não admitia nenhuma outra autoridade, que ela acabou aceitando mais tarde, contanto que fosse com a aprovação de Janie. Depois, ela passou a fazer ela mesma as coisas que desejava, em geral com agitação.
Dois anos depois, ela aprendeu a andar, mesmo que tropegamente, alimentar-se com dificuldade, a tirar as próprias roupas quando desabotoadas, pegá-las e colocar na cadeira e outros atos rotineiros. Dentro de pouco tempo, ela passou a caminhar como uma criança normal por uma longa distância sem se cansar. Comidas preparadas e postas no seu prato ela ingeria por conta própria. Começou também a proferir algumas palavras, mas apenas 3 por conta própria, não apenas repetindo as que recebeu. São elas: ÁGUA, COMIDA, CAMA.
Esses hábitos foram se consolidando diariamente. De vez em quando, porém, se sua vontade não fosse satisfeita, ela desabava a chorar repentinamente. Subitamente, ela parava, sentada calmamente e com as mãos apertadas. Se sentia que tinha "vencido", aparecia com um largo sorriso de felicidade.
Maud adorava torradas. Quando lhe deram outra coisa, ela tirou da boca, cutucou a treinadora para indicar que não queria aquilo. Janie deu essa coisa de novo a ela, mas ela a manteve à distância, pôs os dedos nos lábios de Janie, querendo "comprá-la". Janie afastou os dedos dela gentilmente; ela ficou resignada por um instante, mas lágrimas começaram a rolar de seus olhos. Janie a tirou da cadeira e a abraçou para mostrar que compreendia as razões dela. Com isso, Maud limpou as lágrimas, voltou a sentar-se na cadeira por conta própria e comeu o que lhe tinha sido dado, sorrindo, como se gostasse.
Janie Morris conclui que tudo isso tem muito significado, mais do que algumas palavras sinalizadas com os dedos. Não que estas não sejam importantes. Antes de palavras, é preciso ter boas fundações, como um ser fisicamente bem, obediente e que saiba se controlar, enfim, que saiba interagir (Morris 1904).

4.2. Janine
Ainda no berçário Janine sofreu uma lesão no nervo auditivo, ficando surda. Ao sair do hospital, constataram que ele era também cega. Não passou pelo estágio de engatinhar, começando a andar com um ano e meio. Subia em tudo que conseguia. A mãe "lia" seus sinais corporais, tais como bocejo para sono, choro para insatisfação, riso para satisfação etc. Começou a segurar a mamadeira e brincava com a mãe. De qualquer forma, até 5 anos, Janine não tinha nenhuma linguagem. Na escola de surdos, com 6 anos recebeu exercícios de desenvolvimento motor. Não interagia com as outras crianças. Começou uma fase de autoagressão; não aceitava o toque de ninguém e agredia a mãe e a si mesma. Embora não interagisse com as pessoas, explorava o meio, usava as calças do pai e os sapatos da mãe.
Quando o pai chegava, proferia o som [pu:tu] bem alto e ela reagia com o som [pa.pa.pa.], procurando por ele. Provavelmente ela percebia apenas uma ressonância do som no seu corpo. Na prática, parece uma percepção tátil. No entanto, começou a gostar de interagir com quem conhecia como o irmão mais novo, que jogava a bola para ela e ela reagia com prazer. Passou a brincar com o violão do pai. Uma inovação importante é que a mãe começou a passar a mão da filha sobre objetos. Além de [pa:pa:pa:], passou a proferir o som [mamã]. A interação já estava bastante avançada. Tanto que ainda aos 5 anos "gritava para pedir ajuda, quando não encontrava chão firme para pisar ou quando subia em algum lugar e não conseguia descer". "Começa uma comunicação rudimentar pela datilologia; a mãe prega papéis nas paredes com nome dos objetos do entorno em braille" (Almeida, 2008: 114). Além disso, aprendeu a comer sozinha e a escovar os dentes.
Intuitivamente, sempre que a mãe lhe dava banho ou água para beber, fazia o respectivo sinal, com o que ela aprendeu o primeiro sinal, ÁGUA. O segundo foi BANHEIRO: ela passou a pôr a mão na fralda quando queria fazer xixi. O terceiro sinal foi COMER. O sinal de MAMÃE foi adquirido porque a mãe punha a mão da filha em si quando fazia esse sinal. Enfim, Janine começou a se interessar pelos objetos do seu entorno e sempre perguntava pelo seu nome, com o que aprendeu o sinal NOME. Nesse ponto, Janine ficou menos agressiva. Já percebia que a escola era para "algo sério", mas a casa era lugar só para brincar.
A partir de 1999, a mãe procurou integrar Janine com outras pessoas em situação semelhante e a situá-la no tempo dizendo-lhe BOM DIA, e qual era o dia da semana, a rotina a ser seguida no dia, fatos que Janine assimilou relativamente bem
Quando explorava o ambiente, colocava as mãos à frente e sempre levava um pé para verificar se havia chão para pisar. "Quando não encontrava chão firme, ficava parada gritando para que a mãe viesse em seu socorro" (Almeida 2008: 143). Janine se mostrou uma menina inteligente, chegando até mesmo a improvisar solução para problemas que surgiam. Ela percebia o que havia no percurso da escola para casa, com base no tempo, nas curvas que o carro fazia, nas lombadas etc. Certa feita, na hora do banho, na casa da pesquisadora, esta lhe pediu que tirasse anel, brinco e outros pertences e os deixasse em cima de uma mesa. Terminado o banho, ela contornou a cama e pegou suas coisas sobre a mesa. Chegou um ponto em que a própria Janine criou o sinal ENTENDE, o que foi assimilado pelos colegas de escola.

4.3. Sam
Aos cinco anos de idade Sam ainda percebia um pouco de luz e tinha uma perda média de audição. Na época do estudo, ele usava aparelho auditivo, de modo que regia a sons do ambiente e imitava alguns sons da fala ativamente. Ele entendia o significado de cerca de 10 objetos de uma comunicação mais expressiva. Do ponto de vista da evolução, ele estava no nível de uma criança de 14 meses, com a capacidade comunicativa de uma de 11 meses e o desenvolvimento físico de uma de 7 meses. Na verdade, ele não andava nem engatinhava, tendo um tônus muscular muito baixo. Ele convivia com um grupo de crianças de 3 a 10 anos sob a supervisão de uma cuidadora que interagia com ele sobre um colchão estendido no chão.  
As interações visavam a provocá-lo, mostrando algo na expectativa de uma reação de sua parte. Essas reações eram tanto positivas (de aprovação) quanto negativas (de desaprovação). Com isso ele estava sendo treinado para a troca de turno, embora algumas sobreposições de turnos tenham sido observadas. Sam apresentava alguns comportamentos estereotipados, como bater palmas, pôr a mão sobre o olho direito, bater ritmicamente nas coisas em seu redor e esfregar as pernas. Às vezes Sam batia na manta e a cuidadora reagia dizendo boom. Sam estendia o pé e ela fazia cócegas na sola dele.
Embora os autores do presente artigo enfatizassem mais questões metodológicas e a validade do método Diagnostic Intervention Model (DIM) de um deles, esse relatório é adicionalmente interessante porque há uma preocupação com a questão da harmonia (harmonious interactions), para que haja interação comunicativa, o que em linguística ecossistêmica chamamos comunhão.

5. A comunicação com surdocegos e a interação comunicativa
Como se pode ler no site alemão Deutsches Taubblindenwerk*, "as mãos são os olhos, os ouvidos e a voz das pessoas surdocegas". Isso significa que uma criança surdocega de nascença só pode perceber o mundo pelo tato, o que a levaria a ficar isolada da sociedade. Afinal, ela está privada dos dois sentidos mais próprios para interação com o meio, sobretudo o meio mediato. O surdocego tem que se valer única e exclusivamente do tato e, talvez, do olfato e do paladar que são dos menos apropriados para uma interação comunicativa.
Vejamos o que nos ensinam os três estudos de caso resenhados na seção anterior. Das três crianças, Maud e Janine são praticamente surdocegas de nascença. Talvez por isso mesmo seu desenvolvimento tenha apresentado muitas coincidências. As duas se mostravam bastante nervosas, às veze agredindo até a si mesmas. Não aceitavam ser contrariadas. Ambas eram manhosas. De certa forma, isso revela inteligência. Maud, por exemplo, se mostrou feliz quando percebeu que tinha “vencido uma pequena disputa. Ambas aprenderam sinais para ÁGUA e COMER, sendo a terceira palavra de Maud CAMA e a de Janine BANHEIRO. Ambas começaram a cuidar de si próprias, como pôr a roupa e tirá-la. No último caso, colocavam-na em cima da mesa.

Quanto a Sam, adquiriu a surdocegueira mais tarde, embora tivesse um desenvolvimento físico bem pior do que o de Maud e Janine. Com efeito, ele não andava nem engatinhava. Mas, por ser capaz de perceber um pouco de luz e ter um pouco de audição até os cinco anos, reagia a alguns sons do ambiente e  imitava sons da fala. Em termos de linguagem (de sinais e/ou verbal), ele estava um pouco adiantado em relação às duas meninas, tendo aprendido a regra de troca de turnos bem cedo.
Janssen et al. (2011) ressaltam a necessidade de uma certa preparação para que haja comunicação, o que eles chamam de "interações harmoniosas“ (harmonious interactions). Vale dizer, os autores admitem a necessidade da comunhão. No caso específico de Maud, Morris (1904) salienta a importância do reconhecimento do entorno, de uma boa disposição corporal e boa saúde para todo o processo de desenvolvimento interacional dos surdocegos. Nisso a autora confirma uma das ideias mais importantes na linguística ecossistêmica, que é a de colocar as pessoas antes da linguagem. Afinal, sem pessoas não há linguagem, elas são hospedeiras dela (Mufwene 2001).
Como podemos ver sobretudo em Janine, a aprendizagem de qualquer sinal, signo ou palavra se dá de modo diametralmente oposto ao que vimos na linguística adâmica. Nesta é a palavra que cria a coisa – "o verbo se fez carne" –, enquanto que a criança surdocega precisa primeiro tomar conhecimento da coisa para, só depois, poder aprender um nome que lhe seja atribuído. Como dizia a escola dialetológica Wörter und Sachen (palavras e coisas), não há palavra sem uma coisa a que ela se refira. Tanto que, já na passagem do século XVII para o XIX o espanhol Lorenzo Horvás y Panduro (1735-1809) mostrava um sinal tátil para "pão" e dava um pedaço de pão ao surdocego. Mais, ele já escrevia essa palavra assim, sem hífen.
Independentemente da idade do surdocego, é necessário começar do começo, pelos sentidos da proximidade, como se faz com os recém-nascidos: começar pelo tato e talvez até mesmo pelo paladar, dando de beber e comer, e pelo olfato, pois, é provável que a criança sinta o cheiro do corpo da mãe.  Primeiro, é preciso que a pessoa tenha um contato com aspectos do mundo mediante os órgãos sensoriais à sua disposição e/ou os que forem mais adequados para cada situação. No caso dos surdocegos, o sentido é necessariamente o tato.
A comunicação dos/ com os surdocegos, pelo menos no início, é uma comunicação basal, básica, de base. Ela tem sido chamada também de comunicação háptica – do grego haptikós relativo ao tato –, que  se dá não só entre os humanos, mas também entre os animais. É o tato que permite sentir prazer, dor, calor, frio etc. Como já observado acima, ele é o sentido da comunhão, da intimidade, como no abraço, no estender a mão como cumprimento, nas carícias, no beijo e na relação sexual. É um tipo de interação pré-verbal, mas que pode acompanhar a interação verbal, mais em algumas culturas, como a africana, menos em outras, como a germânica.
O fato é que, mais cedo ou mais tarde, sempre haverá algum tipo de entendimento, como os diversos exemplos mencionados neste artigo mostram. A interação precede a interação comunicativa (comunicação) e a comunicação precede o sistema. Tanto que na linguística ecossistêmica as regras interacionais vêm antes das regras sistêmicas (gramática), cronológica e logicamente (Couto 2015). Melhor, as segundas são parte das primeiras. Tudo isso significa que Pinker (1995) não tem razão quando fala em "instinto da linguagem". Para ele, como gerativista que é, "linguagem" é sistema, e sistema é uma abstração feita pelo linguista (Coseriu 1968), logo, não pode ser instintivo. O que é instintivo é a interação, inclusive a interação comunicativa (Oliveira e Paiva 2018).

6. Discussão
Retomando a discussão em torno da ampulheta da lexicalização, temos o momento onomasiológico, aquele em que as palavras – e outros aspectos da língua – surgem na práxis dos membros da população em sua convivência no respectivo território. Mas, a certa altura, às vezes concomitantemente, ocorre uma virada semasiológica, em que a língua e seus componentes (palavras, frases, textos etc.) adquirem uma relativa autonomia frente ao mundo, àquilo que lhes deu origem e que representam (Couto 2007: 151-155), podendo os falantes referirem-se a outras coisas, fazer ficção, poesia, filosofia etc. por meio deles. É por isso que Eco (1979: 59) disse que língua é o que permite mentir. Tanto que na fase inicial de aquisição da língua a criança não mente. Ela só o faz quando chega à virada semasiológica, quando entra no mundo dos adultos
Os ouvintes dispõem das línguas orais; os surdos, das línguas de sinais; os cegos, do alfabeto braille, além da língua oral. Para os surdocegos, porém, por não terem visão nem audição para perceber o mundo, sobretudo o mediato, têm muita dificuldade para conhecer o mundo e, portanto, simbolizá-lo. O tato só permite perceber o que a mão alcança, como vimos acima. Por isso, não há “linguagens surdocegas”. Cada caso é um caso, ou seja, cada surdocego específico poderá se comunicar por uma ou mais das linguagens disponíveis, como a língua oral, a visual (de sinais), a tátil (braille), ou por uma linguagem inventada por quem cuida dele. Tudo vai depender da idade em que a pessoa ficou surda e/ou cega, dos recursos tecnológicos disponíveis, do treinamento dos cuidadores etc. A propósito, Steven Pinker diz que “há vantagens óbvias no uso da boca e do ouvido como canais de comunicação. Não há nenhuma comunidade de ouvintes que opte pela língua de sinais, mesmo sendo ela tão expressiva quanto a oral. A fala não requer boa luminosidade, contato face a face nem a monopolização das mãos e dos olhos, além de poder ser ouvida a longas distâncias quando gritada ou cochichada para manter segredo. Mas, ao fazer uso do meio sonoro, a fala precisa superar o fato de que o ouvido é um estreito gargalo informacional” (Pinker 1995: 161). Faltou acrescentar que nenhum grupo de surdos abdicaria da linguagem visual em prol de uma tátil. Afinal, esta exige contato físico.
Voltando ecossistema linguístico da figura 2, podemos dizer que a linguagem/língua (L) nasce da experiência das pessoas com o mundo, com o seu território (T), sem esquecer que o mundo (M) é constituído por T mais a parte físico-natural de P, ou seja, M= T + P1. De certa forma, inicial, ontogenética e filogeneticamente, elementos de L e o próprio L como um todo refletem aspectos de M, mesmo que apenas os aspectos que os membros de P conseguiram perceber. Pode-se, portanto, dizer que L foi criada como reflexo das coisas e aspectos do mundo. Esse reflexo é filtrado por P, portanto, L não deixa de ser uma representação do mundo (natural, mental, social). Até aqui, temos a fase onomasiológica do processo de formação de conceitos e de lexicalização. Porém, após formada por esse processo, L e seus componentes – como as palavras – adquirem uma relativa autonomia frente ao mundo, o que representa um formidável aumento do poder expressivo-comunicacional de L. A estas alturas, os membros de P podem falar não apenas dos aspectos de M que deram origem a L. Eles podem também fazer ficção, poesia e filosofia. Podem inclusive mentir: diante de uma árvore dizer “isto é uma pedra”. É isso que leva os verbocriacionistas, praticantes de linguística adâmica, a pensarem que “a linguagem cria o mundo”. 
No caso específico da criança, temos o exemplo de Aninha, que começou interagindo com o pai pelo tato; com sete dias de idade começou a acompanhar movimentos da cabeça dele com o olhar e, meses depois, começou a interagir por sons. A primeira palavra (ÁGUA) veio com onze meses de idade (Couto 2002).

6. Observações finais
A comunicação dos e com os surdocegos mostrou-se uma boa instância para se discutir a relação palavra-coisa. Com efeito, primeiro é preciso apresentar-lhes a coisa para, só depois, lhe dar um nome, processo que se dá entre o surdocego e a pessoa que cuida dele, ou seja, a referência surge no processo de interação. Até aqui há coincidência com o que se deu no Gênesis. Mas, diferentemente do Gênesis, com os surdocegos a formação da linguagem se dá na própria interação; não há um ser superior que cria a relação palavra-coisa para só assim haver atos de comunicação. É bem verdade que houve alguns minidiálogos, como foi apontado acima. No entanto, eles não se deram na linguagem que estava sendo criada; na verdade, não se sabe em que linguagem. Mas, o simples fato de ter havido “diálogos”, a referida passagem da Bíblia menciona as duas facetas da moeda da linguagem, a referência e a comunicação.
Há uma terceira questão linguística na Gênesis de interesse para a ecolinguística. É a do multilinguismo, como se pode ver no mito da Torre de Babel (11, 1). É desse assunto que trataram dois dos primeiros autores que associaram língua e ecologia. Os primeiros são Voegelin & Voegelin (1964); o segundo é o próprio pai da disciplina, Haugen (1972). Na mesma linha temos ecolinguistas como Norman Denison, Albert Bastardas Boada e Louis-Jean Calvet. 
Por ser verbocriacionista, a linguística adâmica deixa implícito que só temos acesso ao mundo via linguagem. Até teorias linguísticas modernas perfilham essa concepção, como a filosofia de Huboldt e a Hipótese Sapir-Whorf. Um exemplo que confirmaria essa hipótese que eu tenho dado é o da palavra obï no tupi e no guarani. Ela designa tanto o que chamamos de “verde” quanto o que vemos como “azul”. Com isso, a linguística adâmica está dizendo que os falantes dessas línguas “não veem” a distinção que vemos porque suas línguas só têm a palavra obï para designá-los. Fernando Pessoa também é dessa opinião, ao dizer que

Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.

Mas, pelos cinco sentidos temos sim contato direto com o mundo. Se perguntarmos ao falante de tupi-guarani se o céu limpo e as folhas das árvores têm exatamente a mesma cor, ele coçará a cabeça e dirá: “bem, não é exatamente a mesma coisa, mas é tudo obï”, simplesmente porque ele tem o sentido da visão igual ao dos falantes de português. Enfim, eu poderia dar exemplos parecidos do russo, do bretão e de diversas outras línguas.

Notas
*Deutsches Taubblindenwerk: http://www.taubblindenwerk.de/ueber-uns/kommunikation/ (11/02/2018).

Referências
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Coseriu, Eugenio. 1968. Teoría del lenguaje y lingüística general. Madri: Gredos.
Couto, Hildo Honório do. 1996. Introdução ao estudo das línguas crioulas e pidgins. Brasília: Editora da UnB.
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Da Sacco, Martina. 2007. Der taubblinde Mensch in der Gesellschaft - unter besonderen Berücksichtgung seiner Förder- und Bildungsmöglichkeiten - oder, was es bedeuted taubblind zu sein. Dimplom-Arbeit, Universität Wien.
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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Comunhão


Hildo Honório do Couto
Universidade de Brasília
(Professor Emérito)


Introdução
Assim que tomei conhecimento da "função fática" da linguagem em Jakobson (1960: 126-127), pensei que o conceito poderia ser utilizado para explicar o cimento que une os indivíduos em sociedade, além das funções que o próprio Jakobson lhe havia atribuído. É bem verdade que as acepções em que o autor utilizou a expressão não servem diretamente para isso. No entanto, eu antevia as possibilidades que o conceito oferecia, como ficou claro mais tarde com o advento do ramo brasileiro da Ecolinguística chamado Linguística Ecossistêmica. Comecemos pelas definições que o dicionário dá do termo. 
O Aurélio apresenta as seguintes acepções de "comunhão": 1. Ato ou efeito de comungar: "Que é a reza senão a comunhão com o infinito?" (Geraldo França de Lima, Branca Bela, p. 17). 2. V. Eucaristia (1). 3. A administração ou a recepção da Eucaristia. 4. Participação em comum em crenças, interesses ou ideias: "os lábios ficaram colados muito tempo, em silêncio, completando ...., a comunhão perfeita das suas almas" (Eça de Queirós, Os Maias,11, p. 261). 5. Conjunto daqueles que comungam nos mesmos ideais, crenças ou opiniões; comunidade. Uma das acepções encontradas no dicionário francês Petit Robert também me pareceu bastante interessante. Ela diz que comunhão é "estar em comunhão de ideias e de sentimentos”.
De uma forma ou de outra, todas essas acepções têm a ver com o sentido atribuído ao termo no presente ensaio, embora algumas apresentem mais afinidades do que outras. Assim, o ato ou efeito de comungar (1), remete ao verbo comungar que, ainda de acordo com o Aurélio, significa: 1. Administrar a comunhão (O sacerdote comungou os fiéis). 2. Receber ou tomar a comunhão (Contrito, comungou a hóstia). 3. Receber ou tomar o sacramento da Eucaristia ("queria confessar-se e comungar, tinha medo de morrer em pecado", Coelho Neto, Sertão, 330). 4. Pertencer a grupo ou sociedade que tem as mesmas ideias religiosas, políticas, literárias, científicas etc. (Sempre comungou no Partido Liberal). 5. Ter entrada ou parte em; participar (Comunga nos ideais da liberdade). 6. Por-se ou ficar em contato; ligar-se; unir-se; comunicar-se (Poesia é um estado de alma religioso e metafísico em que o homem comunga diretamente com a divindade. Alberto Ramos, Prosas de Ariel, p. 135). A acepção 3 do Aurélio remete a comunicação, da perspectiva do receptor. A de número 4 é mais interessante ainda, pois ter "crenças, interesses ou ideias" em comum é estar ligado mentalmente, que tem a ver diretamente com a interpretação que a Linguística Ecossistêmica dá ao conceito. A acepção 5 nos leva ao que chamarei de comunhão sistêmica, aquilo que faz com que os habitantes das regiões em que se fala uma língua (comunidade de língua) tenham o sentimento de compartilhá-la, mesmo que não se conheçam pessoalmente nem estejam comunicando no momento. A definição do Petit Robert tem mais afinidades ainda com o conceito de comunhão linguístico-ecossistêmica. 

Histórico do conceito
Vejamos um pequeno histórico do conceito de comunhão no estudo dos fenômenos da linguagem. Até onde pude investigar, quem primeiro falou em comunhão no contexto da comunicação foi o antropólogo inglês Bronislaw Malinowski. O texto saiu como apêndice ao conhecido livro de Ogden & Richards, The meaning of meaning (1923), como se pode ver em Malinowski (1972). Partindo do pressuposto de que a linguagem só é plenamente entendida no contexto de uma situação específica, ele afirma que “a fala é um meio necessário de comunhão; é o instrumento indispensável para criar os vínculos do momento, sem os quais é impossível a ação social unificada” (p. 307). Para ele, “romper o silêncio, a comunhão de palavras, é o primeiro ato para estabelecer laços de amizade, a qual só é consumada na partilha do pão e comunhão do alimento” (p. 311). Ele chamou esse tipo de interação de comunhão fática, “um tipo de fala em que os laços de união são criados pela mera troca de palavras” (p. 311). Nessa situação, “não é preciso ou, talvez, nem deva até haver coisa alguma a comunicar. Desde que existam palavras para trocar, a comunhão fática leva selvagens e civilizados, por igual, para uma agradável atmosfera de intercurso polido, social” (p. 312). Na verdade, veremos que a comunhão precede a fala e até pode prescindir dela. Em várias situações, ela existe independentemente da troca de palavras. Pelo contrário, a troca de palavras, ou seja, a interlocução é que precisa ser apoiada por uma atitude de comunhão prévia.
Quatro anos mais tarde, Grace Andrus de Laguna retomou o termo em seu livro Speech: Its function and development (1927). De acordo com essa autora, “a língua continua exercendo a função mais simples [da linguagem] que Malinowski chamou de ‘comunhão fática’. Ela serve com muita frequência meramente para nos manter em rapport afetivo uns com os outros. Nós passamos o dia com nosso vizinho apenas como uma expressão de boa vontade e para despertar e manter uma atitude amigável para com ele” (p. 244). Com isso, ela está expressando uma concepção próxima à de número 2 do Petit Robert, que é a que eu adoto. Infelizmente, porém, a autora parece confundir ‘comunhão’ com uso estereotipado de palavras. Falando dos “gritos e chamados dos animais”, Laguna diz que “essa troca vocal é do primeiro tipo de ‘comunhão fática’, que ajuda a cimentar os laços da vida em comum. Aqui, sim, ela retoma o rumo que nos interessa, ou seja, ao ver a comunhão como um tipo de cimento social (p. 278). O fato importante é que Laguna foi certamente a terceira pessoa a falar de comunhão no contexto da linguagem.
Quase quarenta anos mais tarde (em 1960), Roman Jakobson retomou o termo de Malinowski no contexto de suas seis funções da linguagem, falando em “função fática” da linguagem, Jakobson disse que essa função "pode ser evidenciada por uma troca profusa de fórmulas ritualizadas, por diálogos inteiros cujo único propósito é prolongar a comunicação". Ele afirma ainda que ela ocorre tipicamente também em aves falantes, de modo que "a função fática é a única que compartilham com os seres humanos". Acrescenta que a interação fática é a primeira das crianças, afirmando que “elas têm tendência a comunicar-se antes de serem capazes de enviar ou receber comunicação informativa” (Jakobson, 1969: 126-127). Esta última asserção se aproxima de nossa concepção de comunhão, pois ela dá a entender que pelo menos parte da comunhão precede a comunicação por palavras.
Uma grande inovação de Jakobson é o fato de ter distinguido três “momentos” em estados de comunhão ou, em seus termos, na função fática da linguagem. Primeiro, há expressões para abrir o canal de comunicação, o que ficava bem claro na comunicação telefônica (alô!). Segundo, há expressões para manter o canal aberto, ou checar se ele ainda está aberto (tá, sim, hum-hum etc.). Terceiro, existem expressões para fechar o canal de comunicação, encerrar a interação comunicativa (tchau!). No modelo de Jakobson, a função fática é a abertura, manutenção e fechamento do canal de comunicação. Esses três momentos são apropriados pela comunhão linguístico-ecossistêmica. No compartilhamento de sentimentos entre indivíduos que se veem juntos, ela tem o mesmo papel de preparar o cenário em que a comunicação pode se dar. Isso implica os momentos de encetar, manter e encerrar a comunicação.
Benveniste (1970: 17-18) também tangenciou o conceito de comunhão. Falando de Malinowski, ele diz que “ele esboçou sua configuração partindo do papel que aí tem a linguagem. Trata-se de um processo em que o discurso, sob a forma de um diálogo, estabelece uma relação entre os indivíduos”. Como os demais autores já mencionados, Benveniste acha que só há comunhão via linguagem, pois é ela que “estabelece uma relação entre os indivíduos”, ela é uma “comunhão de ideias e de sentimentos”. Uma vantagem deste texto é que o autor reproduz três parágrafos do ensaio original de Malinowski, embora sem nenhum tipo de comentário. Por isso, é uma fonte para quem não tiver acesso ao texto de Malinowski.
Outro autor francês que fala em comunhão no contexto da comunicação é Henri Gobard. Não vamos entrar nos pormenores de sua “análise tetraglóssica”. Basta lembrar que, para ele “a condição sine qua non de todo desenvolvimento humano é a relação afetiva em que a linguagem serve de suporte a uma comunhão e não a uma comunicação” (Gobard 1976, p. 23). De acordo com esse autor, “a criança que diz 'mamãe' na presença de sua mãe não comunica nada, mas comunga toda sua relação” (p. 27). Gobard acrescenta que “o espírito de comunhão [...] está necessariamente ligado a uma comunidade de pequena dimensão” (p. 28). Por fim, diz ele, “cada grupo natural secreta assim sua própria linguagem de comunhão, segundo a qual, o que importa não é tanto comunicar, pois todos os membros do grupo sabem as mesmas coisas, mas confirmar o que já se sabia” (p. 28). A propósito, a língua francesa dispõe de um dito popular que expressa muito bem essa ideia, ou seja, parler de la pluie et du beau temps, ou seja, 'falar da chuva e do tempo bom'. O próprio Gobard menciona a expressão “il fait beau, hein”, que significa algo como 'o tempo está bom, não é?".
O que está dito nessa última afirmação de Gobard se aproxima bastante do conceito de comunhão da linguística ecossistêmica. Veremos que, para esta, o que importa não é necessariamente trocar palavras. Na verdade, a troca de palavras, ou seja, a comunicação é que precisa ser precedida de um estado de comunhão. Como outros autores ressaltaram, nessas situações fala-se para fugir de um incômodo silêncio.
Há outros termos, propostos por outros autores, que se referem a algo muito parecido com a comunhão. É o caso do sociolinguista e crioulista William Samarin, que usou o termo “simbiose” ou confraternização ("fraternization", referindo-se ao francês "fraternisation"). Falando do encontro de aloglotas que dá lugar aos chamados pidgins, ele diz que "algum tipo de simbiose é necessário para que um pidgin se desenvolva" em uma situação de contato de línguas. Entre as partes contactantes, havia "todo um conjunto de relações que faziam com que a comunicação se tornasse necessária ou desejável" (Samarin, 1988: 160-161). Esse “conjunto de relações” não é nada mais nada menos do que um estar junto e querer cooperar. Por isso, o termo ‘simbiose’ poderia perfeitamente ser usado no lugar de comunhão. Não obstante isso, prefiro ‘comunhão’ devido a suas ligações óbvias com comunicação, além de o termo fazer parte de uma tradição mais longa, no caso, a religiosa.
Vejamos, por fim, duas obras mais próximas de nossa época que falam em comunhão fática. A primeira é a de Coupeland, Coupeland & Robinson (1992). Eles começam salientando que o conceito tem sido usado nas áreas de sociolinguística, semântica, estilística e comunicação, salientando que em seu uso objetivos relacionais sobrepujam os de faticidade e instrumentalidade. Os autores fazem uma pesquisa sobre o uso de How are you? junto a pessoas idosas como uma forma de abrir o canal de comunicação ou, nos nossos termos, de estabelecer comunhão, para que haja comunicação. O Segundo é Senft (1995). Ele é uma boa fonte de consulta no que concerne à conceituação de comunhão, além de apresentar a opinião de diversos outros autores sobre o assunto.

Comunhão na Linguística Ecossistêmica
Praticamente todos os autores que mencionamos partem da ideia de que comunhão pressupõe língua. Para todos eles, exceto par Jakobson (ele admite comunicação fática entre as aves), comunhão ou comunhão fática só existe mediante algum tipo de troca de palavras. Para Malinowski, por exemplo, os “laços de união são criados pela mera troca de palavras”, ou seja, a comunhão só se manifesta por meio delas. Laguna afirma que a linguagem (troca de palavras) “serve com muita frequência meramente para nos manter em rapport afetivo uns com os outros”, vale dizer, esse rapport (comunhão) é estabelecido pela troca ritual de palavras. Para Jakobson, a comunhão fática (comunicação fática) se mostra por meio de “uma troca profusa de fórmulas ritualizadas”. As mesmas opiniões são expressadas por Benveniste e Gobard, entre outros. De todos os autores citados acima, o que se aproximou mais da concepção linguístico-ecossistêmica de comunhão foi, estranhamente, William Samarin, mesmo sem ter usado o termo “comunhão”, mas o de “simbiose”. Sua asserção de que "algum tipo de simbiose é necessário para que um pidgin se desenvolva" leva diretamente a comunhão como a defendemos. Com efeito, os pidgins emergem numa situação de encontro de falantes de línguas mutuamente ininteligíveis. Para que comecem a comunicar-se uns com os outros é necessário que haja uma predisposição para isso, que o autor chamou de “simbiose”. Essa “simbiose” inicial é precisamente a comunhão de interesses e de objetivos que prepara o terreno para a “troca de palavras”, ou seja, para a comunicação, ou interação comunicativa.
Como concebida pela Ecolinguística, sobretudo a Linguística Ecossistêmica, comunhão não pressupõe nada. Ela é que é pressuposta para que haja interação comunicativa, ou seja, comunicação linguística eficaz. As palavras de Samarin recém-mencionadas podem ser um ponto de partida para essa discussão. No primeiro encontro dos portugueses com os índios tupinambás, quando a esquadra de Pedro Álvares Cabral chegou ao que hoje se chama Porto Seguro, em 1500 – no “descobrimento” do Brasil –, houve diversas interações entre as duas partes, que poderiam levar à formação de um pidgin. O fato foi minuciosamente descrito pelo escrivão da esquadra, Pero Vaz de Caminha, no que ficou conhecido como Carta de Caminha.
Do ponto de vista linguístico e cultural, não havia nada em comum entre portugueses e índios tupinambás. Os índios podem ter pensado inicialmente que se tratava de algum tipo de deuses que chegaram em uma grande canoa, ao passo que os portugueses não tinham certeza se os índios eram gente como eles. A despeito de tudo isso, houve algum tipo de precário entendimento, se for verdade o que Caminha escreveu, pois seu maior interesse era agradar ao rei. Em Couto (2001, 2003) há uma meia dúzia de exemplos de interações que parecem ter sido eficazes. Vejamos o primeiro deles: "o capitão mandou Nicolau Coelho ir a terra; logo, apareceram cerca de 18 a 20 homens com seus arcos e flechas na mão". Coelho “lhes fez sinal que posessem os arcos [no chão], e eles os poseram”. Vale dizer, no primeiríssimo contato houve algum tipo de entendimento, mediante gestos. Mas o que interessa no presente momento são interações que revelam uma “comunhão de ideias, de sentimentos”, uma “simbiose”, uma predisposição para a cooperação, uma boa vontade para interagir com o outro.
Uma das primeiras interações desse tipo é o fato de que lá para o terceiro dia do contato, os índios começaram a ajudar os portugueses a carregar água doce para encher os barris. Outro dia um português começou a tocar gaita e dançar, e os ameríndios o acompanharam, inclusive dando-lhe as mãos, todos rindo muito. Como disse Caminha, houve um momento em que “mesturavam-se todos tanto connosco, nos ajudavam deles a carretar lenha e meter nos batéis e luitavam com os nossos e tomavam muito prazer”. Em outros momentos, eles “dançaram e bailaram com os nossos”, atitude claramente comunial. No momento em que foi celebrada a primeira missa, os tupinambás imitavam tudo que os portugueses faziam: ajoelhavam-se, levantavam-se, sentavam-se e se persignavam. Essas “comunhões de ideias e de sentimentos” revelam que estavam em sintonia com os europeus, o que em Linguística Ecossistêmica significa que estavam em comunhão com eles.
Contrariamente ao que dizem todos os autores mencionados acima, exceto Samarin, não houve nenhuma troca de palavras. O que houve foi um tipo especial de interação, a interação comunial, ou simplesmente comunhão. Trata-se de puros atos de confraternização ou congraçamento. Dessa perspectiva, comunhão tem muito a ver com comunicação, mas não se confunde com ela. Se a comunicação consiste em solicitação de informação por parte de um interlocutor, seguida de seu atendimento pelo outro, ou seja, se comunicação é uma troca de informação por meio de palavras, a comunhão consiste em uma preparação do cenário para que essa troca seja eficaz. Comunhão não é troca de informação propriamente dita, mas a criação de uma predisposição nos indivíduos que estão juntos em determinado espaço para que isso se dê. Pelo fato de estarem juntos solidariamente, comungam de muitos interesses, entre eles uma abertura para a troca de informação. Se não por outros motivos, pela simples predisposição em si mesma. 
De um modo geral, pessoas que se veem juntas em determinado espaço fatalmente interagem entre si. A interação inicial, a que precede qualquer outro tipo de interação é uma tentativa de entrar em comunhão no sentido de “comunhão de ideias e de sentimentos”. Só depois desse primeiro passo é que poderá haver trocas de palavras propriamente ditas, diálogos, mesmo que sejam apenas para manter a união do grupo, ou seja, mesmo que sejam expressões meramente fáticas. Isso vale para a comunicação prototípica. Veremos que as altercações, brigas verbais também são algum tipo de "comunicação", mas são casos excepcionais.
Vejamos o caso de alguém que acaba de chegar a uma cidade pela primeira vez. Se precisar interpelar um transeunte para perguntar onde fica determinada rua, não o dirá de supetão: “Onde fica a rua Tiradentes?”. Pelo contrário, nos termos de Jakobson, primeiro ele tentará abrir o canal para a comunicação, mediante algo como “por favor!”. Ao virar-se para quem o interpelou, o transeunte praticamente já entrou em comunhão com ele. Portanto, a pergunta “onde fica a rua Tiradentes?” já poderá ser formulada. Normalmente haverá um atendimento a essa solicitação. Quando o interpelado não sabe onde fica essa rua, procura por alguém em volta que talvez possa atender o interpelante, numa atitude de boa vontade, de predisposição para ajudar. Essa prdisposição não é nada mais do que comunhão.
Quando recuperamos o sentido religioso original da palavra, verificamos que a existência de um código comum não é necessária para que haja comunhão. O mais importante é o próprio compartilhamento, não importa de quê. Tanto que a definição do Petit Robert diz exatamente que comunhão é "estar em comunhão de ideias, de sentimentos”. Nesse sentido, comunhão é um conceito ecológico mais amplo. Todos os seres animais tendem a ter atos de comunhão, e não apenas as aves, como sugeriu Jakobson, para proteção, reprodução, lazer etc. Veja-se o caso das bactérias. Talvez mesmo os vegetais interajam comunialmente. Pode ser que até mesmo a força de coesão no caso da matéria inorgânica seja uma espécie de comunhão no reino mineral. É isso que se pode ver explicitamente exposto em Couto (2009: 34-38). Sem aprofundar este tema, minha proposta é de que comunhão não pressupõe uma língua comum. Pelo contrário, é a comunicação e, por extensão a língua, que pressupõem algum tipo de comunhão prévia. Como disse Schaff (1968: 159) "o processo de comunicação só ocorre no mundo animal quando envolve o processo de cooperação, processo de ação social sui generis". Por "cooperação", entenda-se comunhão.
No caso dos seres vivos, e os humanos não são exceção, se essa interação for de hostilidade (simbiose desarmônica), poderá haver lutas, redundando até mesmo na eliminação do outro, ou de todos. Nesse caso, o agrupamento heteróclito acaba se desfazendo. Se a interação for de solidariedade (simbiose harmônica), os seres poderão passar a constituir um todo relativamente homogêneo, uma comunidade. No nível do orgânico, ocorre algo semelhante. Um exemplo seria a fertilização do óvulo que dá lugar ao feto. No nível do inorgânico, temos a força de atração e a de repulsão. Se prevalecer a segunda, as partículas (os corpos) se repelirão; se prevalecer a primeira, poderão aderir umas às outras, formando um novo corpo.
Alguns poucos autores salientam a importância do espaço nesse contexto. Assim, quando indivíduos, mesmo de culturas diferentes, se veem juntos em um mesmo espaço, ou seja, entram em contato, por uma questão de sobrevivência acabam entrando em comunhão, como a que se viu em Porto Seguro em 1500 entre portugueses e ameríndios. A partir dessa comunhão, inevitavelmente surgirão tentativas individuais de comunicação. Caso a convivência continue, essas tentativas acabam levando à emergência de uma comunidade e, consequentemente, à emergência de uma linguagem comum, como começou a ocorrer nos primeiros núcleos de colonização na África, América, Ásia e Oceania. A situação comentada por Samarin é o início de um desses processos.
Numa situação de contato de povos e línguas diferentes (contato interétnico, interlinguístico) é claramente a solidariedade (comunhão) que começa a preparar o terreno para o surgimento de uma comunidade. Nos primeiros momentos do encontro, tem-se apenas uma agregação cinética, como as pessoas no elevador, que nada têm em comum, motivo pelo qual ficam ansiosas para chegar ao seu andar e cair fora. Outro tipo seria a agregação tropista, como as pessoas debaixo de uma marquise para se proteger da chuva. Em nenhum desses casos há comunhão. No entanto, se a convivência no espaço perdurar, fatalmente surgirá algum tipo de comunhão, pois estão compartilhando uma situação sem saída. O modo mais comum de interação é a comunhão, ou seja, o estar satisfeito, ou conformado, com o simples estar junto. Se há alguma coisa para comunicar, isso é muito bom e bem-vindo. Se não houver, não importa. O que importa é a solidariedade, a predisposição para a convivência e a comunicação. No caso da criança adquirindo a língua de seu meio, isso se aplica integralmente.
Em síntese, no reino do inorgânico, a comunhão consiste na copresença espácio-temporal de partículas ou elementos, que se atrairão. Nesse caso, elas se aderirão uma à outra, formando um todo complexo. A sedimentação que dá lugar a rochas seria um exemplo. No reino do orgânico, ou biológico, a copresença espácio-temporal pode provocar um contágio, que pode levar, entre outras coisas, à formação de um novo ser, como na fusão de uma célula haploide (espermatozoide) com a do sexo oposto (óvulo) durante a fecundação para formar um zigoto. No reino do superorgânico, a copresença leva a uma solidariedade (comunhão), inclusive por uma questão de sobrevivência, que é o primeiro passo para o surgimento de uma comunidade e, consequentemente, de uma linguagem. A última, por sua vez, faculta a comunicação propriamente dita, manifestada no fluxo interlocucional, ou diálogo.
O fato de a palavra “comunhão” etimologicamente iniciar-se pelo prefixo “con-” não é casual. Muitas outras palavras iniciadas por ele indicam algum tipo de comunhão, como confraternização, comemoração, congraçamento, cooperação e outras. Isso porque a relação de junção indicada por ele pressupõe copresença de dois seres em um mesmo espaço, contíguos um ao outro. A recíproca também é verdadeira: sempre que dois seres (humanos, no caso) se veem juntos, interagem. Se não é comunicando-se, o que pressuporia uma linguagem comum, pelo menos comungando do mesmo estado de espírito a partir do qual a qualquer momento podem ocorrer atos de interação comunicativa, como se vê nas regras interacionais 1 e 2, expostas em Couto (2015a: 63-66). Deleuze (1976) já havia chamado a atenção para esse fato.
Como se pode ver no Vocabulaire technique et critique de la philosophie, de André Lalande (Paris: PUF, 1956, p. 152), comunhão é “similitude de sentimentos, de ideias, de crenças entre duas ou mais pessoas que têm consciência dessa similitude”. Por isso, comunhão é também “interatração ou agrupamento fundado sobre essa similitude”. Aí temos uma explicação para a comunhão que houve entre portugueses e ameríndios, ou seja, o fato de ambos os lados terem o dom da consciência. Deixando de lado a discussão filosófica e psicológica sobre o assunto (como no materialismo dialético), basta lembrar que a etimologia da palavra “consciência”, indica justamente saber (scientia) com outros (con-). Assim, a despeito de não ter havido atos de interação comunicativa, que pressupõem uma linguagem comum, em Porto Seguro, houve cooperação, congraçamento, enfim, comunhão, porque cada lado tinha todo um conhecimento do mundo, e sabia que o outro também deveria tê-lo. Portanto, o que propiciou a eficácia de alguns dos atos de interação comunicativa foi, além da copresença no espaço, que deu lugar a uma comunhão, a consciência de que cada lado tinha ciência (conhecimento) do mundo e de que o outro também a teria. Por isso, um lado compartilhava essa ciência (conhecimento), com o outro. Em síntese, a sequência evolutiva é a seguinte: a agregação tropista provoca uma interação entre os indivíduos; se essa interação for competitiva, de rivalidade, o agregado se autoaniquilará; se for cooperativa, terá lugar uma atitude de comunhão, que preparará o contexto para a comunicação. Logo, agregação cinética/tropista > interação > comunhão > comunicação.
Além de simbiose, que é um conceito ecológico mencionado acima por William Samarin, há outros conceitos da linguagem comum que lembram de perto a questão da comunhão. Um deles é 'convívio' ou 'convivência', que o Aurélio define como sendo “ato ou efeito de conviver; relações íntimas; familiaridade; trato diário".
Vejamos a comunhão no contexto da ADE, ou seja, Análise do Discurso Ecossistêmica (ou Análise do Discurso Ecológica), proposta em Couto (2014) e desenvolvida em Couto, Couto & Borges (2015). Contrariamente às AD tradicionais, na análise dos textos-discursos a ADE não enfatiza ideologias e relações de poder, mas a defesa da vida e uma luta constante contra o sofrimento evitável. Isso vai na direção da comunhão, aí inclusa uma compaixão pelo sofrimento de outro ser, não apenas humano, levando a suas últimas consequências o princípio ecológico das relações harmônicas, não apenas intraespecíficas mas também interespecíficas: todos os seres vivos são incluídos; até os não vivos como o ar, as águas, a terra sobre a qual vivemos, o sol que contribui para a vida na face da terra, a lua que embeleza nossas noites etc. É também uma tentativa de neutralizar o sentimento de ódio. É isso que defende a ADE, mediante a postura da comunhão. Não se trata de pieguice nem de ignorância de que as ideologias existem. Trata-se, ao contrário, de uma atitude de compaixão pelo sofrimento do outro (humano e não humano) e de não partir do conflito, botando mais lenha na fogueira político-ideológica. Trata-se, enfim, de tentar apagar o fogo à la Gandhi.   
Nesse sentido, defende-se o uso de uma linguagem que não ofenda o outro (humano e não humano), como detalhadamente discutido em Couto (2012). Não é pieguice, mas uma tentativa de procurar um equilíbrio com a força contrária da indiferença frente ao sofrimento do outro. Até mesmo de uma perspectiva antropocêntrica esses princípios devem ser respeitados pelos humanos, pois a vida humana depende deles. Defendê-los diretamente é defender a vida humana indiretamente.
Praticamente todos os regimes políticos que se instituíram revolucionariamente ruíram, mais cedo ou mais tarde, frequentemente também de modo abrupto. Em geral os que tiveram mais sucesso são os que foram surgindo evolucionariamente, para continuar usando a terminologia marxista. Enfim, como venho tentando mostrar desde Couto (1986), as “regras” que se instituem por cooperação têm mais chances de sobreviver do que as que se instauram por competição. Isso porque o primeiro procedimento leva a uma coordenação geral das vontades, não a uma subordinação da vontade da maioria à de um único indivíduo ou de um pequeno grupo dominante. A história tem mostrado que, contrariamente ao que propõe o marxismo, têm mais chances de sucesso os regimes que surgem seguindo uma evolução natural, paulatinamente, não os que emergem abruptamente, mediante uma revolução. Estes últimos tendem a desaparecer pelo mesmo processo. Tudo isso porque não levaram à comunhão entre os indivíduos que constituem a comunidade.

Descomunhão
A tecnologia atual está afastando as pessoas dos estados de comunhão no sentido que lhe foi atribuído acima. Acabamos de ver que ela é uma espécie de cimento social que mantém a coesão entre as pessoas. Vimos que a convivência comunial em determinado espaço é parte de nossa sociedade. Há comunhão no seio da família, entre cônjuges, numa comunidade paroquial, em uma firma etc. Enfim, há diversos níveis de comunhão.
Como mostrei em Couto (2015b), há situações em que o de se esperar seria que as pessoas ficassem em comunhão, mas o que se nota é justamente o seu contrário. É o caso de uma família composta de pai, mãe e dois filhos adolescentes em uma mesa de restaurante. Frequentemente eles ficam, todos, ligados no WhatsApp, trocando mensagens com alguém que não está ali, praticamente ignorando-se uns aos outros. Eles estão fisicamente juntos, às vezes com os ombros se tocando, mas não se percebem mutuamente. A isso, chamei de descomunhão, que é um estar junto fisicamente mas não mental nem socialmente. A descomunhão se dá nas situações em que o de se esperar é que haja comunhão, mas, na verdade, o que se tem é seu contrário. Daí o sufixo des-, que expressa a ideia de algo contrário ao que seria de se esperar.
Há quem ache que existe comunhão nessa situação. Para essas pessoas, tratar-se-ia de um outro tipo de comunhão. As pessoas nessa situação estariam cientes da presença dos demais e que, de vez em quando, se dirigem a eles. Além disso, estariam em comunhão virtual com alguém não presente espacialmente, ou seja, no mesmo T. No meu modo de entender, isso seria espichar por demais o conceito de comunhão. Ele tem uma acepção muito precisa, oriunda do cristianismo e até da Ecologia. Nesta última ela recebe o nome de interação harmônica, caso em que o caso que chamei de descomunhão seria, de alguma forma, uma interação desarmônica. O conceito está mais bem desenvolvido em Couto (2015b).
  
Observações finais
Gostaria de repetir que pode haver comunhão sem comunicação, mas não comunicação sem comunhão, a não ser nos casos de altercação, de brigas etc. Mas, isso não é comunicação prototípica, aquela que se dá entre dois interactantes face a face e em que há o desejo, às vezes até um prazer em comunicar, obedecendo as regras interacionais.
Contrariamente à tese daqueles que acham que há comunhão entre os cinco membros de uma família em torno de uma mesa que estão se comunicando com alguém fora dali via WhatsApp, pode haver comunhão até em nível de multidões. Inclusive intercontinental. No primeiro caso, podemos pensar nas pessoas que lotavam o estádio do Maracanã no momento da morte do corredor brasileiro de fórmula 1 Airton Senna. Assim que o fato foi anunciado pelos alto-falantes, houve um silêncio de um minuto em que se podia ouvir uma mosca voando. Isso é comunhão. Todos estavam em uníssono, em sintonia no sentimento de homenagem ao ídolo.
Vimos que duas pessoas que encetam um diálogo entraram primeiro em comunhão. Essa é, digamos assim, a comunhão mínima, que poderíamos chamar de comunhão interacional, pois ela se dá devido à necessidade de entrar em atos de interação comunicativa. Mas, podemos dizer também que uma comunidade de fala se mantém coesa devido a um sentimento de comunhão, de que compartilham uma linguagem, costumes, relações de parentesco, de amizade, de vizinhança etc. Trata-se de comunhão como cimento social. Nesse sentido, podemos dizer que o que mantém os membros da comunidade de língua coesos em torno de sua língua é algo parecido. Os habitantes de Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste têm, pelo menos os que determinam os destinos dos respectivos países/estados, um sentimento de pertença à Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Trata-se de algo que poderíamos chamar de comunhão sistêmica, pois, na verdade, o que os une é justamente o sentimento de compartilhar o sistema da língua portuguesa. Enfim, o conceito de comunhão é tão fundamental que perpasse a língua desde o sistema até a célula da comunicação, ou seja, o ato de interação comunicativa, passando pelas comunidades de fala de diversas dimensões.


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