quarta-feira, 18 de junho de 2014

Alguns precursores da Linguística Ecossistêmica


0. Introdução

Linguística Ecossistêmica é o ramo brasileiro da Ecolinguística, que tem como centros a Universidade de Brasília e a Universidade Federal de Goiás, o eixo Brasília-Goiânia, em torno da Escola Ecolinguística de Brasília, embora ela tenha participantes em diversos estados do país e até no exterior. O objetivo desta postagem é rastrear algumas das ideias surgidas ao longo do tempo que anteciparam o que atualmente se pratica em Linguística Ecossistêmica, que é a variante da Ecolinguística praticada por essa escola. Este levantamento não tem a menor pretensão à exaustividade.
Antes de mais nada, é preciso lembrar que para a Linguística Ecossistêmica a língua é vista como interação, no espírito do que apregoava Mikhail Bakhtin, embora não no do seu viés marxista. Isso porque ela se baseia no conceito central da Ecologia, o ecossistema, no qual o que interessa são as interações. Elas são basicamente de dois tipos: interação organismo-mundo e interação organismo-organismo. Como sabemos, linguístico-ecossistemicamente o primeiro tipo de interação corresponde à referência, a interação que se dá entre a palavra e o fenômeno do mundo a que ela se refere. Às vezes, essa interação é também chamada de significação, designação, denominação, nomeação etc. É interessante lembrar que, na interação palavra-coisa, podemos partir da coisa e procurar pela palavra que a designa (visão onomasiológica), ou da palavra e indagar a que coisa ela se refere (visão semasiológica). Pode acontecer de ela se referir a mais de uma coisa, caso da polissemia ou da homonímia. O segundo tipo de interação equivale à interação comunicativa, costumeiramente chamada apenas de comunicação.
A língua é interação em todos os sentidos, de modo que não se trata apenas dos dois tipos recém-mencionados, que são interações exoecológicas. Há ainda as interações endoecológicas, aquelas que tradicionalmente se tem chamado de estruturais. Na sintaxe, temos interação entre palavras formando uma locução, das locuções formando orações, das orações formando parágrafos, textos e assim por diante, além da interação entre eles e o estado de coisas a que se referem. Na morfologia temos estratégias estruturais para o alargamento do poder referencial da língua. Do verbo con.stitu.ir, por exemplo, a morfologia forma con.stitu.i.ção, con.stitu.cion.al, com.stitu.cion.al.ismo etc. Os morfemas que constituem as palavras são formados por sílabas que, por seu turno, são formadas por fonemas. E assim sucessivamente. Trata-se de uma reutilização de recursos já existentes na língua, fenômeno eminentemente ecológico.
Ao longo da história, grande parte dos estudos tem se restringido às interações língua-mundo (referência) e às interações entre elementos de uma estrutura. As interações exoecológicas entre pessoas (comunicação) e entre elas e a língua só passaram a merecer a atenção dos estudiosos em época relativamente recente. Menos atenção tem merecido o contexto em que as interações exoecológicas se dão. 
Antes de passar em revista os precursores da Linguística Ecossistêmica propriamente ditos, gostaria de salientar dois precursores imediatos, ou seja, aqueles que propulsionaram nossa disciplina na década de noventa. Um deles é Alwin Fill, que teve um papel decisivo no estabelecimento da disciplina, não só com Fill (1987) e Fill (1993), mas também organizando congressos, simpósios, mesas-redondas e publicando coletâneas ecolinguísticas. O outro é Adam Makkai que, além de ter publicado um livro com a palavra ‘ecolinguística’ na capa no mesmo ano do de Fill (Makkai 1993), já vinha propondo a abordagem ecológica aos fenômenos da linguagem desde a década de setenta (Makkai 1972).
Falar em relação língua-mundo ou palavra-coisa pode dar a entender, e geralmente dá, que língua e palavra são coisas, que se relacionam com outra coisa, o mundo ou a coisa (objeto, ou fenômeno do mundo). Na verdade, o mais correto é dizer relação pessoa/língua-mundo, usuário/palavra-coisa. Quem entre em relação com o mundo ou com a coisa é o falante da língua, seu usuário, abaixo designado por "pessoa", de modo que podemos sintetizar a expressão 'interação língua mundo' como 'interação pessoa/língua-mundo' (PL-M), e 'interação palavra-coisa' como 'interação pessoa/palavra-coisa (PP-C). Mas, por economia usarei a representação L-M, P-M e variantes. Como mostra a figura 1, a palavra é um tipo de relação do indivíduo com o mundo e a língua é um padrão de interação da população com o mundo (L = palavra; P = pessoa; M = mundo, coisa). A relação de L com M é sempre por intermédio de P, a despeito das concepções “construtivistas”, que afirmam que só temos acesso ao mundo via linguagem (cf. o “entremundo” de Humboldt!).

L—P—M
Fig. 1

1. Língua na interação pessoa-pessoa: comunicação
O ponto de partida para a concepção de língua como interação é a própria Ecologia, cujo conceito central é o de ecossistema, no interior do qual o conceito central é o de interação. O conceito definidor do ecossistema linguístico é a interação comunicativa verbal (L), não os falantes (P) nem o espaço (T) em que se encontram. Na verdade, as reflexões filosóficas que implicam essa visão de língua recuam à Antiguidade. Entre os gregos, começa pelo menos com Heráclito (ca. 500 a.C.), precursor da dialética, embora Maritain (1959: 44) tenha afirmado que seu precursor foi Sócrates. Heráclito afirmava que tudo está sempre mudando (panta rei) e que a disputa está na origem de tudo (pólemos patér pánton). Para ele, o mundo se constituía de interação. Sócrates (469-399 a.C.) também é um precursor dessa visão interacional. Seu método maiêutico consistia em ensinar dialogando, ele era um eterno discutidor, além de ter sido o iniciador da ética, como afirma Maritain. No Oriente, temos o taoísmo, que também recua a milhares de anos antes de Cristo. Como mostrei em Couto (2012b), essa filosofia vê o mundo como um eterno movimento cíclico, de modo muito parecido com o de Heráclito.
Pulando para o final da Idade Média e o período da Renascença, temos o catalão Juan Luís Vives (1492-1540) que, embora como voz solitária, dizia: "não me agrada muito essa observação dos preceptores, e, se tivéssemos um povo de fala latina ou grega, eu preferiria com ele passar um ano para aprender essa língua a passar dez anos sob os mestres mais cultos" (Apud Coseriu 1980: 76). Para ele, para aprender uma língua era preciso interagir com seus falantes.
Muitos outros filósofos anteriores, contemporâneos e posteriores defendem a visão interacionista, mesmo que implicitamente. Poderíamos alinhar ainda Baruch Espinosa (1632-1677), Rousseau (1712-1778), Hegel (1770-1831) com sua teoria dialética, o materialismo dialético e histórico, com Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), e a neomarxista Escola de Frankfurt. Um dos mais novos seguidores desta última, Habermas (nascido em 1929), é conhecido como proponente da teoria da ‘ação comunicativa’ (kommunikatives Handeln). Um pouco antes temos as Investigações filosóficas (1953) de Ludwig Wittgenstein (1889-1951). Diferentemente do que havia feito em Tractatus logico-philosophicus de 1921 (inteiramente metafísico), em 1953 ele propôs uma teoria que via na linguagem um jogo, ou seja, interação. 
No âmbito dos estudos estritamente linguísticos, podemos começar pelos dois iniciadores do estruturalismo, Ferdinand de Saussure (1857-1913) na Europa e Leonard Bloomfield (1887-1949) nos Estados Unidos. Ambos deixam implícito que a função da língua é a comunicação. Em Saussure, temos a famosa figura de duas faces voltadas uma para outra interagindo, nos capítulos iniciais do Curso de linguística geral (1916). Um dos capítulos iniciais do livro Language (1933), de Bloomfield, é a interação (estímulo-resposta) entre Jack e Jill. No entanto, por terem uma visão instrumental da língua reificavam-na como instrumento de comunicação, de modo que a interação ficava apenas implícita, não era a essência de suas teorias. Uma ilustre exceção entre os seguidores de Saussure é Eugenio Coseriu (1921-2002). Em toda sua obra ele defendeu a tese de que a língua existe na interação, e que a estrutura é uma abstração forjada pelo linguista a partir dela. Usando "hablar" por interação e "lengua" por estrutura, ela afirmou que "mientras que la lengua se halla toda contenida en hablar, el hablar no se halla todo contenido en la lengua" (Coseriu 1967: 287). Infelizmente, entre os estruturalistas, ele foi um solitário defensor dessa tese.
Koch (2004) apresenta uns cinco modelos teóricos que tratam da "interação pela linguagem", título de seu livro. Primeiro, "a Teoria da Enunciação tem por postulado básico que não basta ao linguista preocupado com questões de sentido descrever os enunciados efetivamente produzidos pelos falantes de uma língua: é preciso levar em conta, simultaneamente, a enunciação - ou seja, o evento único e jamais repetido de produção do enunciado. Isso porque as condições de produção (tempo, lugar, papéis representados pelos interlocutores, imagens recíprocas, relações sociais, objetivos visados na interlocução) são constitutivas do sentido do enunciado" (p. 12). Essa teoria tem como precursor Mikhail Bakhtin (1895-1975) e Émile Benveniste (1902-1976). Se não fosse a herança marxista e estruturalista, respectivamente, desse modelo, aqui teríamos quase que uma caracterização da ecologia da interação comunicativa.
Em seguida Koch apresenta a Teoria dos Atos de Fala, surgida na filosofia analítica, mas "apropriada pela Linguística Pragmática", e "tendo como pioneiro J. L. Austin, seguido por Searle, Strawson e outros". Eles mostram que não basta a proposição lógica "a terra é redonda". Assim teríamos apenas um ato locucionário. Em atos de fala concretos, fica implícito, por exemplo, algo como "eu afirmo que a terra é redonda" ou "eu pergunto se a terra é redonda", caso em que teríamos atos ilocucionários. Por fim, uma expressão como "eu te batizo" ocorre junto com o ato de batizar, num ato perlocucionário. Como se vê, já se preocupa com a interação, mas de modo ainda muito tímido.
O terceiro exemplo dado pela autora, a Teoria da Atividade Verbal, não é muito convincente. Ela teria sido praticada na ex-URSS e na ex-Alemanha Oriental, partindo de ideias de Vygotski, Leontiev e Luria. O quarto são os postulados conversacionais de Grice. Eles contêm quatro máximas, ou seja, máxima da quantidade (não diga nem mais nem menos do que o necessário), máxima da qualidade (só diga coisas para as quais tem evidência adequada; não diga o que sabe não ser verdadeiro), máxima da relação ou relevância (diga somente o que é relevante) e máxima do modo (seja claro e conciso; evite a obscuridade, a prolixidade) (p. 27). Tudo isso tem a ver com a interação comunicativa, mas muito indiretamente.     
O quinto modelo apresentado por Koch é o que tem mais afinidades com a Linguística Ecossistêmica. Trata-se da Análise da Conversação, originada na sociologia interacionista, que se inspirou na Etnometodologia de Harold Garfinkel (1917-2011). Como se pode ver em Sacks, Schegloff & Jefferson (1978), o objetivo é estudar a estrutura da conversação como atividade social. Alvos dessas análises eram a tomada de turno, tida por Levinson como um dos universais da linguagem, questões como pergunta-resposta, saudação-saudação, solicitação-aceitação/recusa etc. Não fosse a restrição ao domínio exclusivo do social, aqui teríamos o programa da ecologia da interação comunicativa (Koch 2004: 76-77). Marcuschi (1986) é uma boa apresentação dessa proposta.
Hoje em dia existem outros modelos interacionistas, ou pretensamente interacionistas, como o funcionalismo, a linguística interacional, a linguística integracional e outros. No entanto, a maioria deles tem uma visão instrumental da língua, considerando-a um instrumento que as pessoas usam para se comunicar. Para a Linguística Ecossistêmica, a língua não tem por função a expressão do pensamento nem a comunicação. Ela é a própria expressão do pensamento e a própria comunicação, juntas e integradas. Ela é a interação (verbal) que se dá entre cada dois membros do ecossistema linguístico. 

2. Língua na interação pessoa-mundo I: a significação
Para começo de conversa, é necessário salientar que para a Linguística Ecossistêmica as palavras não se relacionam com as coisas por si sós, como dão a entender alguns estudos sobre referência. Para ela as interações língua-mundo são mediadas pelos usuários da linguagem, em consonância com o ecossistema fundamental da língua e como mostrado na figura 1, acima. Portanto, sempre que eu falar em interação palavra-coisa, entenda-se relação entre ser humano e coisa utilizando a palavra. Os estudos sobre esse tipo de interação recuam à Antiguidade, tanto greco-latinos quanto indianos ou chineses. O famoso diálogo platônico Crátilo é dedicado a ela. No taoísmo ela faz parte da essência das preocupações com a linguagem, recuando ao I ching e ao Tao te ching, sobretudo o primeiro. Isso sem falar no confucianismo, cuja ênfase central é na veracidade do que se diz, ou seja, com a precisão da relação palavra-coisa a fim de evitar ambiguidades, mal-entendidos e não entendidos. Esse tipo de estudo era tão importante na Antiguidade que Ammirova et al. (1980) dedica 20 páginas a ele. Para os autores, “a essência das teorias linguísticas dessa época consistia em fornecer regras para o uso da língua, regras que deviam ser encaradas como resultado de uma denominação prévia de coisas”. Eles continuam dizendo que “essa denominação em última instância dá lugar à estrutura da língua” (p. 36).
A questão da referência perpassa por todo período medieval, como se pode ver em Robins (1951) e Leroy (1974), alternando-se entre “realistas (para os quais as palavras são apenas o reflexo das ideias) e nominalistas (que creem que os nomes foram dados arbitrariamente às coisas” (Leroy 1974: 19). A questão da significação era tão importante que seus praticantes passaram a ser chamados de modistae (modistas), devido à grande quantidade de estudos cujo título começava com a expressão De modis significandi (sobre os modos de significar).
Em 1660, vem a lume a Grammaire générale et raisonnée, de Arnauld e Lancelot. Ela trata da linguagem de diversos pontos de vista, inclusive morfossintáticos, mas sempre tendo a semântica por base, ou seja, a interação língua-mundo, a referência. Essa obra racionalista deu lugar mais tarde às chamadas ‘gramáticas filosóficas’, de que temos a de Jerônimo Soares Barbosa em português.
Em filosofia da linguagem, a relação palavra-coisa continua sendo objeto privilegiado de estudo. Um bom exemplo é o estudo de Gottlob Frege “Über Sinn und Bedeutung” (sobre o sentido e a referência), de 1892. Outro exemplo bastante incisivo é o primeiro Wittgenstein (Tractatus logico-philosophicus, 1921, 1922), que exerceu grande influência sobre os positivistas lógicos. Nesse contexto, deve ser lembrado também o trabalho de Bertrand Russell. O grande problema em todos esses trabalhos é que consideram apenas a relação palavra-coisa, como se elas existissem no ar. Inclusive a teoria do signo de Saussure está nesse caso. Foi o mal-humorado e injustiçado pai da semiótica, Charles Sanders Peirce (1839-1914), quem introduziu o usuário da linguagem, mostrando que a palavra (signo) representa a coisa para alguém. Ele a define (a palavra, ou seja, o seu signo) assim: “Um signo [...] é algo que, sob certo aspecto ou de algum modo, representa alguma coisa para alguém” (Peirce 1972: 94). Como se vê, ele não só introduziu o usuário, mas incluiu também o contexto. Não é para menos que a representação triádica de seu signo seja uma das inspirações para o ecossistema fundamental da língua. Em Peirce temos uma formulação convincente de que toda e qualquer relação da palavra com a coisa é mediada pelo usuário, como defende a Linguística Ecossistêmica. É claro que por mais indireta que seja a relação palavra-coisa, ela existe, tanto que já na Idade Média Juan Luís Vives (1492-1540) dizia que "posto de lado o significado, as palavras são coisa vazia e morta" (apud Coseriu 1980: 70). No entanto, não podemos esquecer que essa relação é mediada pelos membros da comunidade.

3. Interação pessoa-mundo II: o contexto
Já sabemos que por interação “palavra-mundo” entende-se a relação dos falantes com o mundo usando a linguagem. As primeiras reflexões sobre a linguagem viam-na como um conjunto de palavras, cuja relação com o mundo tentavam explicar. O problema é que, como já vimos, encaravam essa relação como se ela se desse entre a “coisa” palavra e a coisa mundo. Ignoravam o fato de que palavras (e a própria língua) só existem no usuário, como vimos com Peirce. O contexto da interação comunicativa entre dois interlocutores e o da língua como sistema dificilmente têm sido mencionados. Na presente seção, pretendo fazer um pequeno apanhado do papel do espaço para a língua em geral. Vou examinar, portanto, aquilo que em Linguística Ecossistêmica se chama T, do tripé povo (P), língua (L) e território (T). O contexto ou cenário da interação comunicativa será examinado na seção seguinte, embora P faça parte desse cenário.
O máximo que podemos ver nesse sentido nos primórdios da reflexão sobre a língua é a ideia vaga de que a “língua” dos gregos existia na Grécia; a dos romanos, em Roma; a dos egípcios, no Egito e assim por diante. A partir de pelo menos Johann Georg Hamann (1730-1788), cujas ideias foram retomadas por Johann Gottfried Herder (1744-1803), começou-se a associar língua a nação, que compreenderia povo, território e toda a cultura. Essa concepção foi minuciosamente dissecada por Wilhelm von Humboldt (1767-1835) cujas ideias foram, por sua vez, retomadas por Leo Weisgerber, em sua Inhaltsbezogene Grammatik (gramática ligada ao conteúdo). Para esses autores, a língua é um espelho da nação, ou seja, ela está ligada a algo exterior, seu meio ambiente. Eles são precursores da teoria do campo, introduzida na Linguística por Jost Trier (1894-1970), embora ele falasse em 'campo lexical', como se pode ver em Trier (1966/1938). Em Schaff (1974: 15-48) há uma ótimo apanhado crítico dessa tradição. Nos estados Unidos, ideias parecidas foram veiculadas na tradição que vai de Franz Boas (1858-1942), passando por Edward Sapir (1884-1939), autor do primeiro ensaio sobre língua e meio ambiente, a Benjamin Lee Whorf (1897-1941). Como em Couto (2007: 56-59) há uma discussão relativamente detalhada dessa tradição, remeto a(a) leitor(a) a essa publicação que, aliás, contém muitas outras informações sobre a história da Ecolinguística.
A ideia de língua relacionada ao espaço físico (o T linguístico-ecossistêmico) aparece de modo bastante enfático na teoria das ondas (Wellentheorie) do comparatista Johannes Schmidt (1843-1901). Contrariando seu mestre August Schleicher (1821-1868), de que as línguas evoluem de forma arborescente (por anagênese ou por cladogênese), ramificando-se como proposto na teoria de Charles Darwin (1809-1882) para a biologia, a teoria das ondas de Schmidt defende a ideia de que as inovações linguísticas se propagam no espaço como ondas concêntricas a partir de um ponto em que se joga uma pedrinha. A partir desse ponto, as ondas vão se propagando centrifugamente. Essa teoria continua válida pelo menos parcialmente.
O polêmico linguista soviético Nikolas Jakolaievitch Marr (1864-1934), quando não por ser marxista, era de opinião de que a língua estava inextricavelmente ligada ao meio (povo e território), de modo que ela é um reflexo desse meio. Reconheceu que cada segmento social tem sua linguagem específica. Juntando isso à asserção de que a língua comum é uma ficção, temos aí o germe da distinção entre ‘comunidade de língua’ e ‘comunidade de fala’. Finalmente, Marr se interessou também pelo contato de línguas e a “hibridização linguística” (contato de línguas), tudo relacionado ao espaço.
A relação língua-espaço (território) foi explorada de modo minucioso pela Dialetologia e por sua parente Geografia Linguística. Até aproximadamente o século XVIII, estudava-se a língua como um todo normativo, frequentemente ligado a um estado, diante da necessidade de se procurar uma língua nacional comum frente aos dialetos. Com a Dialetologia, começa a surgir um interesse pelos dialetos regionais. Segundo Malmberg (1971: 82), podemos distinguir dois métodos de pesquisa dialetológicos, sendo "o primeiro [...] a mera descrição do dialeto que chegava normalmente a monografias dialetais". "O segundo método empregado [...] foi o que se chamou de geografia linguística ou dialetal". Daí o surgimento dos atlas linguísticos, iniciados com o alemão Georg Wenker (1852-1911) por volta de 1881. Seus mapas mostravam que cada palavra tem suas fronteiras, contestando o determinismo das leis fonéticas dos neogramáticos.
A Geografia Linguística deslanchou definitivamente com as pesquisas de Jules Gilliéron (1854-1926) e seu auxiliar para pesquisa de campo Edmond Edmont (1849-1926). De 1902 a 1910, eles produziram o Atlas linguistique de la France, o primeiro do gênero. Se os inquéritos de Wenker se preocupavam com fenômenos fonéticos à la neogramáticos, os de Gilliéron recaíam sobre as palavras das comunidades regionais. Notaram que a partir de certos centros (Paris, Florença) as inovações expandem-se na direção da periferia, em consonância com a teoria das ondas de Schmidt. Como as inovações chegavam à periferia muito lentamente, ela era, portanto, conservadora. A relação da língua com o espaço estava tão estabelecida que se passou a usar a terminologia da Geografia (geografia linguística, estratigrafia, isoglossa etc.). Ficou claro que "não se pode estudar uma língua cientificamente e utilmente sem conhecer o meio em que a língua é escrita e falada", "a linguagem humana não pode ser isolada do meio em que é utilizada". Isso está em perfeita sintonia com os postulados da Linguística Ecossistêmica. 
No que tange à relação palavra-coisa, surgiu a escola das Wörter und Sachen (palavras e coisas), tendo à frente Rudolf Meringer (1859-1931) e Hugo Schuchardt (1842-1927). De modo natural, a Etnografia começou a ajudar nas pesquisas dialetológicas. Destaca-se o estudo da toponímia, que demandava conhecimentos linguísticos, históricos e do meio ambiente. Surgiram igualmente estudos de onomasiologia, aqueles que relacionam a coisa à palavra que a designa. Esses estudos tiveram desdobramento, entre outros, na Neolinguística (ou linguística areal) italiana, com Matteo Bartoli (1873-1946), Giulio Bertoni (1878-1942), Giuliano Bonfante (1904-2005) e Vittore Pisani (1899-1990) à frente. Influenciados também pela filosofia de Benedetto Croce e a de Wilhelm von Humboldt, eles se dedicaram ao estudo da distribuição das línguas e dialetos pelo espaço, antecipando o que o pai da Ecolinguística, Einar Haugen, faria várias décadas mais tarde. Aí se incluem questões como contato de línguas, difusão dialetal, ausência de fronteiras rígidas entre línguas e dialetos, o que aproxima mais uma vez a dialetologia da noção de ecossistema, que é delimitado pelo observador. 
Enfim, com a dialetologia e a geografia linguística a relação L-T veio à tona de modo flagrante, embora não se tenha tido consciência de que essa relação se dá sempre via população (P), como Peirce mostrou pioneiramente e como é defendido pela a Linguística Ecossistêmica.
O primeiro linguista no sentido moderno do termo que tratou da relação língua-meio ambiente foi Edward Sapir (1888-1939). Em 1911, ele pronunciou uma conferência sob o título "Language and environment", na Associação Antropológica Americana. O texto saiu no American anthropologist 14 p. 226-242 (1912) e, posteriormente, nos Selected Writings of Edward Sapir in language, culture and personality (cf. Mandelbaum 1949). Em 1969, Joaquim Mattoso Câmara Jr. traduziu o texto e o incluiu na coletânea Sapir (1969), sob o título de "Língua e ambiente", talvez pelo fato de a expressão "meio ambiente" ainda não ser muito popular na década de sessenta. Se Haugen é o "pai" da Ecolinguística, Sapir é o "avô". De qualquer forma, ele é um precursor da Ecolinguística, sobretudo da Linguística Ecossistêmica.
Por fim, gostaria de mencionar mais dois autores que sempre estudaram a língua no contexto em que ela existe. O primeiro é o inglês John Rupert Firth (1890-1960). Ele a via sempre como comportamento no "contexto da situação". Michael Halliday foi seu aluno e formulou sua Linguística Sistêmico-Funcional partindo de suas ideias. A segunda é a romena Tatiana Slama-Cazacu, com seu livro de 1959 Limbaj si context, traduzido para o francês em 1961 como Langage et contexte. Em Couto (1999: 98-99) há um apanhado geral de sua contribuição para a ideia de língua relacionada ao contexto em que é usada.
Voltando ao conceito de 'ecossistema linguístico' em si, sabemos que ele tem sua origem imediata no de 'ecossistema biológico'. Este, por seu turno, foi proposto pela primeira vez em Tansley (1935), embora a história da Ecologia recue até bem antes disso. Deixando de lado as reflexões dos gregos (Aristóteles, Teofrasto), um dos primeiros pioneiros da Ecologia é Antoni van Leeuwenhoek (1632-1723), o primeiro a estudar as 'cadeias alimentares', e Carl Linnaeus (1707-1778), ou Lineu, que examinou a 'economia da natureza' e criou o sistema binominal de nomeação de espécies vegetais, sendo que o primeiro nome designa o gênero e o segundo a espécie, como Psidium guajava L, nome da goiabeira. Karl Möbius (1825-1908) desenvolveu o conceito de 'comunidade ecológica', também conhecida como 'biocenose'. Ernst Haeckel (1834-1919) criou o conceito de 'ecologia' em 1866. Enfim, a história de Ecologia está intimamente associada à da Biologia.
Uma outra fonte para o conceito de ecossistema é o de Gestalt em Psicologia, que vai de aproximadamente 1910 a 1967. A Gestalt, por sue vez, foi influenciada pela teoria do campo da física, tanto que seu seguidor Wolfgang Köhler (1887-1941) fora aluno de Max Planck. O gestaltista heterodoxo Kurt Lewin (1890-1947) enfatizava o comportamento humano em seu contexto físico e social. Ele retomou o conceito de Lebensraum (campo psicológico, espaço vital) proposto originalmente pelo criador da geografia humana Friedrich Ratzel (1844-1904). A despeito do mau uso que os nazistas fizeram dele, como Georg Schmidt-Rohr (1890-1945), trata-se de um conceito muito interessante. De acordo com Lewin, o espaço vital inclui não só o presente, mas também o passado e o futuro que possam influenciar a pessoa, o que lembra a dimensão temporal da visão ecológica de mundo. Segundo Schultz & Schultz (2009: 319), "Lewin postulou um estado de equilíbrio entre a pessoa e o seu ambiente. Quando esse equilíbrio é perturbado, surge uma tensão [...] que leva a algum movimento, numa tentativa de restaurar o equilíbrio". Para Lewin, "assim como o indivíduo e o seu ambiente formam um campo psicológico, assim também o grupo e o seu ambiente compõem um campo social" (p. 320). Lewin propôs a fórmula C = f(PM), que diz que o comportamento (C) é função (f) da pessoa (P) em seu meio (M).
É importante ressaltar que os geltaltistas não separam corpo e mente rigidamente, considerando-os como parte de um todo. De novo, trata-se de uma ideia que está em perfeita sintonia com a visão ecológica de mundo. Em vez de serparar, junta-se, de modo abrangente, holístico. O ecolinguista Wilhelm Trampe mostrou que Albert Bandura (nascido em 1925) retomou essa fórmula e a ampliou, "na medida em que apresenta o comportamento como grandeza identificável e vê um inter-relacionamento entre as três grandezas P, M e C" (Trampe 1990: 190). Trampe representa isso da seguinte forma:

P
/    \
C-----M
Fig. 2

Essa figura lembra o signo triádico de Peirce (1972: 94), sobretudo na representação de Ogden & Richards (1972: 32), mostrada na figura 3, em que S é signo, R representante e I interpretante.

I
/    \
S----R
Fig. 3

Fica patente que essas relações triádicas são precursoras do ecossistema fundamental da língua, fulcro da Linguística Ecossistêmica, que contém em si três outros ecossistemas linguísticos mais específicos, que são o ecossistema natural, o mental e o social. A representação do ecossistema fundamental da língua é a que se vê na figura 4. Seus componentes são os mesmos da figura 1, bastando apenas substituir o M de mundo por T de território e a representação linear pela triangular.

P
/    \
L----T
Ecossistema Fundamental da Língua
Fig. 4

De maneira explícita o ecossistema fundamental da língua foi proposto inicialmente em meados da década de noventa do século passado, inclusive com a representação triangular, embora a ideia em si recue a Couto (1986). Em Couto (1998: 2) ele apareceu pela primeira vez em forma escrita, fato que se repetiu de modo mais desenvolvido em Couto (1999: 91, 115-124). Nesta segunda monografia já se falava em "ecolinguística" e "ecologia linguística", outro nome para Ecolinguística, na Linguística Ecossistêmica. Por fim, a ideia foi desenvolvida em relativa profundidade em Couto (2007: 89-108), o primeiro manual de introdução à Ecolinguística a ser publicado em português. Em seguida vieram a lume diversos livros e artigos desenvolvendo o ecossistema linguístico, inclusive o natural, o mental e o social.

4. Língua como interação
Sintetizemos a ideia de língua como interação, integrando os dois tipos fundamentais de interação em um todo, como na figura 5, e, em seguida as interações endoecológicas e as interações exoecológicas. A interação pessoa-mundo (referência) está representada por p-A, no caso, "A" de assunto de que os interlocutores falam. As interações pessoa-pessoa (comunicação) estão representadaa por p1--p2, ou seja, quaisquer duas pessoas da população.

a < ------- >
 --------- > 
p1         p2
 \        /
  \    /
  A
Língua como interação
Fig. 5

Seguindo os índices alfabéticos, nota-se que a interação começa com o indivíduo (p1) percebendo um acidente ou fenômeno do mundo, aqui representado por A (linha oblíqua esquerda). No caso, geralmente p1 pode ter outros contatos com o fenômeno. Se ele tiver que se reportar a esse fenômeno a outra pessoa (p2), terá que dar um nome a esse fenômeno (linha oblíqua da direita). p2, por seu turno, entenderá o que p1 lhe disse dirigindo-se pelo menos mentalmente ao mesmo fenômeno. Se a interação tiver continuidade, p2 se transformará em falante a propósito do assunto iniciado por p1 e responderá, momento em que p1 certamente evocará de novo o assunto da interlocução e assim segue o fluxo interlocucional. A interação terá êxito, ou seja, haverá entendimento se a relação de p2 for pelo menos aproximadamente a mesma de p1. Do contrário, haverá incomunicação. 
Da perspectiva ecolinguística, sobretudo da da Linguística Ecossistêmica, as pessoas se comunicam referindo-se a algum aspecto do mundo e referem-se a aspectos do mundo comunicando-se. Mesmo quando o assunto da interação comunicativa seja algo mental, social ou até abstrato ou fictício. A abstração é “abstraída” de algo e a ficção nunca é 100% fictícia. Do contrário, não haveria entendimento entre os interlocutores.

4.1. Interações endoecológicas
A Ecolinguística e, com mais razão, a Linguística Ecossistêmica perfilha a visão ecológica de mundo (VEM), motivo pelo qual se interessa pela língua sob todos os pontos de vista. Nada na língua lhe é estranho. Ela se interessa não apenas por questões exoecológicas, como contato de línguas, relações entre língua e usuários, entre usuários-língua e espaço, questões político-ideológicas embutidas nos discursos etc. Ao linguista ecossistêmico interessam também as interações endoecológicas, estruturais.
Desde a década de sessenta existe um modelo de análise linguística que trata de fenômenos estruturais da perspectiva das interações. Trata-se da Gramática Estratificacional, de Sydney M. Lamb que, infelizmente, foi apagada pelo poder político da então Gramática Gerativo-Transformacional de Noam Chomsky. Foi uma pena, pois a teoria de Lamb estava perfeitamente no espírito da nova visão de mundo introduzida pela Teoria da Relatividade e pela Mecânica Quântica. A de Chomsky ainda estava no nível da Mecânica Clássica de Newton. A teoria de Lamb atualmente é chamada de Linguística Neurocognitiva, que dispõe de uma ótima página na internet. A versão anterior dessa teoria dispõe de uma pequena apresentação em português em Couto (1982). O ecolinguista Adam Makkai era um de seus seguidores. Seus textos aqui mencionados são ecolinguístico-estratificacionais.
Comecemos pelo léxico. Mais do que qualquer outro componente da língua, ele se apresenta eminentemente em forma de redes. Os chamados ‘campos lexicais’ e ‘campos semânticos’ já apontam nessa direção. Quando olhamos para a representação das ‘relações paradigmáticas’ de Saussure, temos mais uma comprovação de que o léxico está organizado em forma reticular. Se mencionarmos a qualquer falante de português palavras como angico, peroba, aroeira, ... e pedirmos que continue a lista, ele certamente continuará enumerando nomes de árvores. Mentalmente, o vocabulário de nossa língua está organizado por ‘campos semânticos’.
Na morfologia já há alguns poucos estudos que mostram que a derivação e a composição, por exemplo, existem para aumentar o poder referencial-comunicativo da língua. Além do mais, toda inovação morfológica começa na interação comunicativa, como qualquer parte da língua. Inclusive questões sintáticas podem (e devem) ser abordadas ecolinguisticamente. Por exemplo, já foi mostrado que a concordância (nominal e verbal) existe para que falante e ouvinte saibam quem faz o que a que(m). Não se trata apenas de relações lógicas, como dão a entender as teorias formalistas. Estratégias como a relativização existem para facilitar a tarefa do falante, evitando repetições desnecessárias, segundo o princípio do menor esforço. Em Couto (2007: 157-218) já há algumas sugestões de estudos linguístico-endoecológicos.
De acordo com os antigos, as relações endoecológicas emergiram das exoecológicas. Para eles, “os homens agora procuravam, como único método legítimo de pesquisa, derivar e justificar regras da gramática de sistemas de teorias lógicas e metafísicas sobre a natureza da realidade” (Robins 1980: 75). O problema é que eles partiam da ideia de relações abstratas, como fazia Hegel, não de relações concretas entre fenômenos, como faziam Marx e Engels. Na visão dos dois últimos, e da Linguística Ecossistêmica, a endoecologia é, ao contrário, tributária da exoecologia, a comunicação é primária, a significação secundária. Essa é também a posição do filósofo da linguagem e ecolinguista alemão Peter Finke, que também parte de relações naturais efetivas, não de abstrações.

4.2. Interações exoecológicas
As relações exoecológicas têm constituído o objeto quase exclusivo da Ecolinguística desde seu surgimento. O próprio Haugen havia apresentado como programa para a disciplina questões como contato de línguas, bi- e multilinguismo, política e planejamento linguístico etc. Os trabalhos que surgiram em torno do grupo de Graz (Áustria), tendo Alwin Fill como líder, se dedicam basicamente a análises de discursos da perspectiva da teoria de Norman Fairclough. No entanto, há outras linhas de pesquisa a que a Linguística Ecossistêmica tem se dedicado. Existe a Etnoecologia Linguística, que investiga, via linguagem, a relação que os membros de pequenas comunidades mantêm com o meio circundante. Temos os estudos toponímicos, para os quais a visão ecolinguística é um ótimo ponto de partida. E assim por diante.
As questões tratadas pelos primeiros ecolinguistas (contato de línguas etc.) também fazem parte da agenda da Linguística Ecossistêmica. Ela se ocupa das relações língua-mundo, língua-usuário sob todos os aspectos pelos quais possam aparecer. Afinal, ela é um ponto de vista unificado a partir do qual se pode estudar todo e qualquer fenômeno linguístico.

5. A Linguística Ecossistêmica
Já sabemos que a Linguística Ecossistêmica vê a língua essencialmente como interação. Por isso valeria a pena fornecer mais alguns detalhes sobre sua emergência. Vou falar dela muito brevemente e apenas da perspectiva histórica, uma vez que ela está relativamente bem discutida nas demais postagens aqui presentes. A ideia do ecossistema fundamental da língua começou em Couto (1986), em que língua ficou intimamente associada ao povo que a fala, de que é dependente, donde a relação L-P. Em 1995, em textos inéditos, ela foi elaborada um pouco mais mediante o acréscimo do território do povo, tendo o todo recebendo o nome de 'comunidade', inclusive aparecendo com a representação triangular comum na atualidade, como na figura 6.

   L
 /    \
  P----T
Comunidade
Ecologia Fundamental da Língua
Fig. 6
 
A única diferença é que, na figura de 1995, língua (L) se interpõe entre população (P) e território (T), o que vai contra a posição da Linguística Ecossistêmica de que a língua existe na população, com o que toda relação dela com T é mediada por P. Em Couto (1998), a ideia foi desenvolvida ainda mais, mas o modelo continuou sendo chamado de 'comunidade' e L continuou entre P e T. O mesmo se dá em Couto (1999), mas os três componentes (L, P, T) já são discutidos em relativo detalhe. Em Couto (2000) já apareceu a expressão 'ecologia fundamental da língua', ao lado de 'comunidade'. Em Couto & Silva (2001), reaparece a denominação 'ecologia fundamental da língua', o que é repetido em Couto (2001a),  Couto (2001b), Couto (2002a) e (2002b).
A seguir, apresento em forma tabelar a evolução do modelo.

- Couto (2003): Juntamente com Couto (2001a), este texto discute minuciosamente a questão da interação, partindo da pré-linguística, que pode levar a um dos conceitos centrais da Linguística Ecossistêmica, a comunhão. Comunhão é uma condição prévia para que haja comunicação. O ensaio inclui um histórico desse conceito.
- Couto (2005): Salienta a importância de se fazer distinção entre 'comunidade de língua' e 'comunidade de fala'.
- Couto (2007): Primeiro manual de introdução aos estudos ecolinguísticos publicado em português. Ainda não usa a denominação 'Linguística Ecossistêmica', mas já é inteiramente ecossistêmico. Mostra que a Ecolinguística deve tratar não só de questões de discurso, mas de todo e qualquer aspecto do fenômeno linguístico, inclusive questões estruturais, como na endoecologia de Makkai (1993).
- Couto (2008): Retoman os conceitos de comunidade de fala versus comunidade de língua, mostra que o que se chama de contato de línguas é, na verdade, contato de povos e respectivas línguas. Propõe que nesse processo o mais importante é como se dá a interação comunicativa, não interferências de uma língua na outra ou vice-versa.
- Couto (2009a): Desenvolve os ecossistemas natural, mental e social da língua, com respectivos meios ambientes. Alarga as possibilidades de abordagem ecolinguística ao contato de línguas, com diversos estudos de caso. 
- Couto (2009b): Desenvolve os três ecossistemas linguísticos em relativo detalhe pela primeira vez.
- Couto (2012a): Mostra a importância de se retomarem os conceitos dialetológicos de 'onomasiologia' e 'semasiologia' nos estudos de semântica.
- Couto (2012b): Prova que a filosofia taoísta é também ecológica, discutindo diversas questões concretas e propondo uma semântica taoísta.  
- Couto (2013a): Apanhado geral da Ecolinguística até a data, acenando pela primeira vez para a possibilidade de uma 'análise do discurso ecológica'.
- Couto (2013b): Mostra pela primeira vez que a interação comunicativa está sujeita a regras, as 'regras interacionais" (afins da análise da conversação) e de 'regras sistêmicas', mostrando que estas são apenas auxiliares daquelas. Com isso, um enunciado pode parecer truncado, fragmentado, aparentemente caótico, mas estar perfeitamente em consonância com os hábitos interacionais da comunidade de fala em que ocorre. Isso porque se entende 'regra' no sentido de 'regra-regularidade' (coletivamente aceita), não no de 'regra-regulamento (imposto de cima para baixo).
- Couto (2013c): Primeira apresentação relativamente sistemática da Análise do Discurso Ecológica (ADE), como extensão da Linguística Ecossistêmica para estudar questões textuais/discursivas. Ele é anterior a Alexander & Stibbe (2014) de um ano. Disponível apenas em:
- Couto[Elza] (2013): Pela primeira vez, introduz o tópico 'metodologia' na ecolinguística, salientando que só pode tratar-se de uma 'multimetodologia', pois é parte de algo válido para todas as ciências ecológicas, a 'ecometodologia'.
- Couto (2014b): Desenvolve de modo mais sistemático a Análise do Discurso Ecológica, inclusive com alguns exemplos de análise.
Não tive a pretensão de enumerar tudo que a Linguística Ecossistêmica tem feito e pode fazer. Quis apenas dar alguns exemplos do que se pode fazer a partir dela. Entre outros estudos já feitos, temos alguns sobre as preposições, sobre as conjunções (neste blog), sobre a concordância nominal e verbal etc. A pesquisa continua, com diversos estudos, encontros, palestras, artigos, cursos etc. É uma área nova, mas bastante efervescente. Vemos novos interessados surgirem a todo momento em diversas universidades brasileiras. Para mais informações, pode-se consultar a postagem Linguística Ecossistêmica (em português e em inglês).
Só gostaria de acrescentar que a Ecolinguística Dialética de Odense (Dinamarca) e as 'três ecologias de Felix Guattari tiveram uma forte influência no surgimento dos três ecossistemas linguísticos (natural, mental, social). As 'quatro ecologias' do filósofo e ecologista brasileiro Leonardo Boff também influíram aí, e, adicionalmente, na emergência do 'ecossistema fundamental da língua', mediante sua 'ecologia integral'. Outros autores que apresentaram ideias apropriadas posteriormente pela Linguística Ecossistêmica são Charles Peirce, Kurt Lewin, Albert Bandura, Peter Finke, Wilhelm Trampe, alguns deles já mencionados acima.

5. Observações finais
A Ecolinguística representa uma virada na história dos estudos linguísticos. Ela fez muitos cientistas desviarem o olhar da língua vista como coisa, como um conjunto de regras pairando no ar, mesmo que passíveis de estudo sistemático. Ela redirecionou seu olhar para a visão ecológica de mundo (VEM), defendida enfaticamente por Fritjof Capra, como se vê, entre diversas outras publicações, em Capra (1998). É bem verdade que o status quo acadêmico não tem levado a VEM a sério. Para muitos autores que a aceitam, porém, a Ecolinguística deve ser encarada como um novo paradigma para o estudo dos fenômenos da linguagem.
Tanto tudo isso é verdade que praticamente nada na Ecolinguística surgiu ex nihilo. Mesmo seu ramo mais recente, a Linguística Ecossistêmica, tem precursores históricos em todos os níveis e setores. A começar do próprio conceito de ‘ecossistema linguístico’, que tem a mesma origem que o ecossistema biológico, uma vez que ambos constam de uma população (P), o território (T) dessa população e as interações que se dão entre os membros da população e entre eles e o território ou o mundo (L). A única diferença, se é que se trata de diferença, é que as interações do ecossistema linguístico são chamadas de ‘língua’, enquanto que as do ecossistema biológico são chamadas de ‘interação’ mesmo ou, às vezes, de ‘comportamento’. Aliás, para os behavioristas a língua é basicamente comportamento. Ecossistêmico-linguisticamente, ela o é pelo menos parcialmente. Por fim, por ser ecológica, a Ecolinguística está em sintonia com a nova visão de mundo introduzida pela Teoria de Relatividade e pela Mecânica Quântica, superando assim a visão cartesiana, estática da Mecânica Clássica.

Referências
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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

As conjunções e as relações entre linguagem e mundo extralinguístico


Uma das primeiras conceituações de Ecolinguística afirma que ela investiga as relações entre língua e mundo. Para a Linguística Ecossistêmica, essas relações são o começo de tudo. Como no ecossistema biológico, ela investiga as relações entre organismos (indivíduo-indivíduo: comunicação) e entre qualquer indivíduo da população e o mundo (indivíduo-mundo: significação, referência). A segunda é objeto de estudo da semântica, e procura investigar o significado de palavras isoladas (substantivos, verbos etc.) e de enunciados e textos inteiros. Nós já investigamos a formação de palavras com os prefixos re- e des-, certos processos de formação de palavras compostas (partindo de sua história) e até das preposições espaciais, de cuja base onomasiológica emergiriam as temporais e as nocionais (relações abstratas), como vem demonstrando Bernard Pottier desde a década de sessenta do século passado. Enfim, até agora temos visto que tudo na linguagem tem a ver com o mundo extralinguístico, inclusive as preposições, como se pode ver em http://repositorio.unb.br/bitstream/10482/7496/1/ARTIGO_EcologiaRelacoesEspaciais.pdf O objetivo da presente postagem é tentar mostrar que o único tipo de palavra que aparentemente não teria nada a ver com o mundo seriam as conjunções.
De acordo com Jerônimo Soares Barbosa, em sua Grammática philosóphica da lingoagem portugueza, de final do século XIX, em português existem 9 conjunções 'essenciais': (antiga), e, mas, nem, ou, pois, porém, que, se, a que se deveria acrescentar, talvez, embora, logo e todavia. A Grammaire générale et raisonnée de Port Royal (1969) menciona como exemplos de conjunções: et, non, vel, si, ergo, ou seja, 'e, não, ou, se, então' (primeira edição de 1660p. 102).
As próprias gramáticas normativas já sugerem isso ao afirmarem que as preposições indicam relações entre palavras (portanto, também entre os conceitos a que se ligam) e as conjunções relacionariam orações em um texto. Isso significa que as primeiras teriam a ver com “conceitos”, mas as segundas apenas com relações intratextuais. Pelo menos as “verdadeiras” conjunções nada teriam a ver com o mundo. Por exemplo, em Maria saiu, mas João ficou, a que no mundo se referiria mas? A palavra simplesmente mostra uma relação entre Maria saiu e João ficou. No caso, parece implicar que Maria saiu e João não saiu. O mas parece conter algo de negação, de privação, fato surpreendente. Como se pode ver em Cunha (1970: 391-397), grande parte das conjunções são meras variantes semasiológicas de um mesmo conteúdo, como mas, porém, contudo e todavia. Algumas podem ser convertidas em outras, dependendo da perspectiva em que o falante se coloque. Assim, Se João é mineiro, é brasileiro pode ser convertida em João é brasileiro porque é mineiro e em João é mineiro, logo é brasileiro. Enfim, como se trata de relações lógicas, vejamos o que dizem os lógicos sobre esse tipo de relação.
Do ponto de vista estritamente lógico, Hegenberg (1966: 44-51, 70-72) fala, inicialmente, de cinco “conectivos sentenciais”. São eles: 1) Negação (~ P), como em (a) João está fora x João não está fora, que seria ~(João está fora), lido como “Não se dá o caso de que ‘João está fora’”; 2) Conjunção (P.Q ou P; Q ou PÙQ), exemplicado com (a) Pedro é bom e João é inteligente; 3) Disjunção (PuQ) vel 'e/ou' (não exclusiv)/ aut 'ou' (exclusiva), ilustrado com (a) Pedro é bom ou João é inteligente; 4) Implicação (P®Q), como em (a) Se Pedro está com malária, ele precisa de quinino, (b) Se todas as flores deste vaso são rosas, e esta é uma flor do vaso, então esta flor é uma rosa; 5) Bicondicional, equivalência (P se e somente se Q; Se P então Q e se Q então P), como em (a) Pedro é bom se e somente se João é inteligente. Ele mostra que, partindo de '.' (e) e ® (implica), temos uma "espécie de linguagem 'básica'": a) P . Q eq. ~(P ® ~ Q); PuQ eq. ~P ® Q. Acrescenta que "isso evidencia que é possível 'operar' com dois conetivos 'básicos' , eliminando os demais. Com efeito, toda vez que surgir '.', poderemos usar a primeira equivalência, e toda vez que surgir 'u', empregaremos a segunda, eliminando a conjunção e a disjunção em favor da negação e do condicional. Recordando que o bicondicional é uma conjunção de dois condicionais, também esse pode ser eliminado" (p. 95). Acrescenta que "a escolha de '~' e '®' como 'básicos' é ditada por preferência ocasional. Também seria possível preferir um dos pares seguintes: ~., ~u como conetivos básicos, eliminando-se os restantes em seu favor". A demonstração é a seguinte: PuQ  eq. ~ (~P . ~ Q); P®Q  eq. ~ (P . ~ Q); P®Q  eq. ~ (P . ~Q) . ~ (Q . ~ P). Segundo o autor, “Scheffer, em 1930, mostrou a possibilidade de exprimir todos os conetivos em função de um único" (p. 95-96).
Falando do juízo, Maritain afirma que é “o ato do espírito pelo qual ele une quando afirma ou separa quando nega” (Maritain, p. 109). Isso significa que a negação é um tipo de disjunção. Ela diz que duas coisas não coocorrem: a presença de uma implica a ausência da outra e vice-versa. Como sabemos pela lógica formal, a negação é apenas uma relação entre proposições, no caso, uma relação de disjunção.
Maritain (1980) é mais detalhado ainda, embora de uma perspectiva bastante tradicional, na linha da metafísica. Inicialmente, ele fala de “conjunção”, “disjunção” e “condicional’. Ele apresenta os seguintes exemplos de conjunção: (1) Os valentes se sacrificaram e os covardes se enriqueceram (p. 127), (2) Pedro e Paulo morreram em Roma (p. 129), (3) Pedro e Paulo são amigos. De acordo com ele, "a proposição relativa reduz-se à copulativa: O homem, que vejo, corre”, que equivaleria a vejo um homem e ele corre (p. 132). Acrescenta que "em outros casos a proposição adversativa reduz-se à copulativa: Ele ri mas eu choro” é o mesmo que Ele ri e eu choro (p. 132). Como se pode ver, aí já há uma redução dos diversos tipos de relações lógicas conjuntivas. Só faltou acrescentar que a construção (2) equivale a Pedro morreu em Roma e Paulo morreu em Roma, e a (3) a Pedro é amigo de Paulo e Paulo é amigo de Pedro (p. 129), com o que o valor conjuncional de 'e' se manteria.
Segundo Maritain, "a proposição disjuntiva pode reduzir-se à proposição condicional" (disjunção). Por exemplo, o enunciado (4) Haverá um só chefe ou as coisas serão mal governadas se resolve em (5) se não houver um só chefe, as coisas serão mal governadas e (6) se houver um só chefe, as coisas não serão mal governadas (p. 132). A condicional se converteria em algum tipo de conjuntiva, uma vez que "na proposição condicional, com efeito, o juízo se dirige unicamente sobre a conjunção das proposições entre si". O exemplo (7) Se a terra gira, ela se move (p. 130), no fundo significa que “a terra gira e move”.
Ainda no sentido de redução das relações, Maritain informa que "Bergson acha que um juízo negativo ‘esta mesa não é branca’, não é mais do que um protesto contra um juízo afirmadivo possível, e por conseguinte não recai, a bem dizer, sobre a coisa em si, 'mas antes sobre o juízo' afirmativo que alguém poderia fazer a respeito" (p. 136). Mas, a despeito desse esforço de redução, na verdade Maritain multiplica as relações praeter necessitatem, exatamente como fazem as gramáticas normativas, que seguem a mesma filosofia. Ele fala em “proposição causal’, “proposição relativa”, “proposição adversativa”, “proposição exclusiva, “proposição exceptiva” e “proposição reduplicativa”.
Vejamos como a coisa se apresenta nas gramáticas normativas e como elas multiplicam as relações talvez até mais do que Jacques Maritain. Vou me basear em Cunha (1970), a fim de mostrar como é possível reduzir drasticamente o número de “conjunções”, ou melhor de função conjuncional. Entre as “aditivas”, já vemos que nem não passa de um equivalente de e seguido de negação, ou seja, equivale a e não. Elas representam uma relação fundamental, de conjunção, simultaneidade.
As “adversativas” seriam mas, porém, todavia, contudo, no entanto, entretanto. Além do fato de serem sinônimas, no fundo elas indicam que quando uma coisa se dá a outra não, logo acabam desembocando no contrário da conjunção, a disjunção. O exemplo com mas apresentado no segundo parágrafo acima demonstra-o claramente. As “alternativas” (ou, ora, quer, seja, nem, repetidas ou não) são até mais disjuntivas, de modo que as adversativas. Com efeito, em ou eu me retiro ou tu te afastas, o que temos é que os dois atos não podem se dar ao mesmo tempo. Enfim, como veremos com a análise das demais conjunções, as conjunções fundamentais, prototípicas, são e e ou, a conjunção e a disjunção, respectivamente.
Vejamos as “conclusivas” logo, pois, portanto, por conseguinte, por isso, assim etc. De maneira bem chã e rasteira, uma frase como penso, logo existo não quer dizer nada mais, nada menos do que “eu penso e eu existo”. Algo parecido se pode dizer das “explicativas”. Ao dizer vamos comer porque estou morrendo de fome, o falante está expressando a ideia de que o estar com fome tem que se juntar à ação de comer.
As “conjunções subordinativas” vão pelo mesmo diapasão. As “causais” (porque, pois, porquanto etc.), para começo de conversa, também juntam duas coisas. Uma só pode ser causa da outra se o efeito se seguir à causa, logo, ocorrer junto com ela, como em como [=porque] o mundo não para, a Igreja também vai marchando, vale dizer, o mundo não para e a Igreja vai marchando. Argumentos parecidos incluiriam as demais na conjunção. A única exceção parece serem as integrantes, cuja função é exclusivamente mostrar que uma oração é complemento da outra: tenho certeza de que ele virá e quero que você venha. Mesmo nesse caso, poder-se-ia discutir se as duas expressões não seriam o mesmo que *tenho certeza e ele virá e *eu quero e ele vem.
As duas relações fundamentais (conjunção e disjunção) a que as “conjunções” parecem reduzir-se têm ver com a espácio-temporalidade. Isso parece ficar mais claro se nos lembrarmos de que conjunção é uma relação de simultaneidade espácio-temporal. A disjunção é o seu contrário, logo se articula ao longo do mesmo eixo, isto é, é também de natureza espácio-temporal. Ora, se é de natureza espácio-temporal tem a ver com o mundo extralinguístico, com o meio ambiente natural da língua. Deve ser observado, contudo, que essa relação com o mundo extralinguístico é indireta, ela se dá só depois de reduzirmos as “conjunções” propriamente ditas a suas bases lógicas. As relações indicadas pelas “conjunções” podem até ter a ver com o mundo extralinguístico, mas apenas indiretamente. As indicadas pelas preposições emergem imediatamente de nossa experiência com o mundo real. O conceito de interioridade, ou melhor, de uma coisa dentro de outra (indicada pela preposição em) não depende de lógica nem de observador, como se pode ver em


Como disse Izidoro Blickstein, “a significação do mundo deve irromper antes mesmo da codificação linguística com que o recortamos: os significados já vão sendo desenhados na própria percepção/cognição da realidade” (Blickstein 1983: 17). Segundo o autor, “linguistas e semiólogos têm sido refratários ao exame da percepção da ‘coisa’ extralinguística” (p. 42). No entanto, “é necessário reconhecer que a experiência perceptiva já é um processo de cognição, de construção e ordenação do universo” (ibidem). Por isso, “deveriam alargar a sua metodologia de análise, voltando-se agora também para o lado direito do triângulo de Ogden e Richards – em que se coloca o referente – e explorando o mecanismo pelo qual a percepção/cognição transforma o ‘real’ em referente” (p. 46). Ele complementa esse triângulo aproximadamente como se vê na figura a seguir.

            Referência
                /     \
              /         \                   práxis
             /           \                      |
     Símbolo   Referente -------------- realidade

A figura mostra que “a realidade se transforma em referente, por meio da percepção/cognição (conforme Greimas) ou da interpretação humana (segundo Coseriu), e o referente será obrigatoriamente incluído na relação triádica”. Nesse caso, realmente as “conjunções” não chegam até a realidade, quando muito ao referente. Talvez as coisas fiquem mais claras partindo de uma reinterpretação e complementação do signo de Saussure, que consta apenas de significado e significante. Acrescentando o conceito que, aliás, já está antevisto em sua “imagem mental”, teríamos algo como a figura

   C
 /   \
S---R

em que S  está para signo, C para conceito e R para referente do mundo real. Partindo das duas maneiras de encarar a questão da referência, onomasiológica e semasiológica, podemos dizer que se há algum conteúdo semântico nas conjunções ele iria no máximo até o 'conceito' da primeira figura, não até a 'coisa' da realidade.
A língua nasceu filogeneticamente para falar do mundo. Ela renasce para a mesma finalidade ontogeneticamente em toda criança que vem ao mundo e começa a mergulhar nos fluxos interlocucionais que se dão em sua comunidade. Como está discutido em relativo detalhe em Couto (2007: 122-155, 275-280), a língua surge para falarmos do mundo. Tudo nela existe em função disso, inclusive as preposições e as conjunções. As primeiras indicam relações do mundo diretamente, ao passo que as indicam algumas relações reais apenas indiretamente.

Referências
Blickstein, Izidoro. 1983. Kaspar Hauser ou a fabricação da realidade. São Paulo: Editora Cultrix/EDUSP.
Couto, Hildo Honório do. 1973. Os conetivos. Dissertação de mestrado, defendida na USP.  
_______. 2007. Ecolinguística: Estudo das relações entre língua e meio ambiente. Brasília: Thesaurus.
Cunha, Celso. 1970. Gramática do português contemporâneo. Belo Horizonte: Editora Bernardo Álvares.
Hegenberg, Leônidas. 1966. Lógica simbólica. São Paulo: Editora Herder/EDUSP.
Maritain, Jacques. 1980. Elementos de filosofia vol. II. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 9ª. ed.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A ecologia da interação comunicativa II

Em uma postagem anterior, a sexta, já falei da ecologia da interação comunicativa (EIC), como sendo o núcleo da linguagem. Pois bem, como a pesquisa é dinâmica e está sempre avançando, é chegado o momento de fazer alguns acréscimos ao que lá foi exposto.
Gostaria de começar pela famosa figura da comunicação exposta no livro Curso de linguística geral de Ferdinand de Saussure. Trata-se de duas cabeças, uma voltada para a outra com uma linha partindo da boca de um, dirigida ao ouvido da outra e vice-versa. Essa figura tem sido objeto de crítica, sob a alegação de que veria a interação linguística como algo fechado. No entanto, pelo simples fato de mostrar interação, aponta para pelo menos três fatos importantes na concepção de linguagem. Primeiro de tudo, o simples fato de salientar a própria interação, que é o ponto fulcral da linguística ecossistêmica e da ecolinguística em geral. Segundo, ela contém os dois atores da ecologia da interação comunicativa, ou seja, falante e ouvinte. Terceiro, ela sugere que o processo interlocucional é cíclico: num primeiro momento, um deles é falante e o outro ouvinte. Num segundo momento, os papéis se invertem. No terceiro de novo, e assim sucessivamente. 
Algo parecido pode ser dito da proposta de Bloomfield, logo no início de seu livro clássico Language. Ele põe os jovens Jack e Jill a interagirem, num processo que lembra o do fluxo interlocucional da ecologia da interação comunicativa, vista na outra postagem sobre EIC. O que é mais, Bloomfield mostra que a interação propriamente linguística envolve interações não linguísticas também. Vale dizer, antes de criticarmos esses dois clássicos, é bom examinar melhor suas propostas. Afinal, pelo menos indiretamente elas têm algo a ver com a visão de Bakhtin (Marxismo e filosofia da linguagem), segundo a qual o lugar em que podemos surpreender a linguagem em sua essência é a interação comunicativa. Nesse sentido, a gramática gerativa foi um retrocesso na história da linguística.
De acordo com a visão de mundo que surgiu a partir da segunda década do século passado com a teoria da relatividade, o mundo todo é uma imensa teia ou rede de interações. Tudo é interação. A interação é universal. Com o advento da ecologia, essa visão foi imensamente reforçada, como se pode ver em Capra (2002). O conceito central da ecologia é o de ecossistema, em cujo interior o que interessa são as interações (I) entre os membros de uma população (P) de organismos e seu meio, habitat ou território (T). Na linguagem é a mesma coisa: o conceito central é o de comunidade, aqui chamado de ecossistema linguístico, cujos componentes são uma população ou povo (P), convivendo em determinado lugar ou território (T) e comunicando-se entre si pela linguagem (L) que lhe é própria. A única diferença entre o ecossistema linguístico (comunidade) e o biológico (biocenose) é que, no segundo, as interações são chamadas de interações mesmo, ao passo que na interação humana elas são chamadas de linguagem (L).  
Os componentes básicos da EIC são o cenário, um falante (F), um ouvinte (O), cada um com os seus, ou seja, aquele (ou aqueles) que está (estão) ao seu lado, do seu grupo. Aquele que está no lado do falante podemos chamar de ELE1; o que está no lado do ouvinte, ELE2. O falante, como o EU da interação, pode incluir ELE1 em sua fala, mas excluir TU, o que dá o NÓS exclusivo (tupi oré). Porém, pode incluir TU, redundando no NÓS inclusivo (tupi jandé). Quando F se refere a TU mais ELE2, produz o VÓS (vocês no Brasil). O lugar do EU é aqui, o tempo é agora e o modo é assim. O lugar do TU é , o tempo então e o modo assado. O ELE de que se fala pode ser substituído por todos os substantivos da língua, uma vez que os interlocutores podem falar de qualquer coisa, de tudo. Mais uma vez, contrariamente à tradição, são os nomes que substituem os pronomes, não o contrário. Tudo de que F e O precisarem falar receberá um nome, o que mostra que o vocabulário (e toda a língua) nasce nos diversos atos de interação comunicativa que ocorrem em cada EIC. Para mais detalhes sobre esse tópico, pode-se ler a postagem de número treze, aqui mesmo.
O cenário da EIC varia em cada caso. Ele compreende o lugar (uma parte de T) e tudo ao redor, imediata e mediatamente. Essa parte do que se chama de meio ambiente natural, na verdade pode ter componentes artificiais, ou seja, o ambiente construído, como uma cidade, por exemplo. Aliás, não é só a parte física que pode entrar em ação na EIC, mas também ingredientes do meio ambiente mental e do social. Tudo de que F e O podem lançar mão eficazmente na interlocução é parte do cenário. As regras sistêmicas são consideradas o centro da linguagem para todas as teorias de orientação formalista, como a gramática gerativa. Para a ecolinguística, sobretudo para a linguística ecossistêmica, elas são, ao contrário, ancilares na interação comunicativa. Tanto que pode haver algum tipo de interação comunicativa eficaz sem elas mediante gestos, na comunhão e em casos extremos como o da interação que houve entre portugueses e índios tupinambás em Porto Seguro em 1.500.
É claro que para uma comunicação mais aprofundada, mais abstrata, as regras sistêmicas são indispensáveis. No entanto, elas podem ser infringidas, o que raramente ocorre com as regras interacionais. Vejamos o seguinte enunciado da variedade rural do português brasileiro falada na região de Major Porto, município de Patos de Minas (MG).

“... não, o cumpad’ Zé.... --- a gente ia pa roça, se tivesse de sole quente ele chamava pa nóis i ... pa casa dele pa nóis réfrescá do sole...; e se tivesse de chuva.... e pur lá nóis ficava o dia tamém. Num vortava” (Couto 1974).

Do ponto de vista das regras sistêmicas (gramática), praticamente tudo nesse excerto de diálogo é agramatical. Inclusive do ponto de vista da coerência e coesão textual ele parece algo inteiramente desconjuntado. Se levarmos em conta o contexto, o cenário em que ele foi produzido, veremos que não se trata de nenhuma monstruosidade.  
O enunciado se tivesse de chuva é, na verdade, incompleto. No entanto, no ato de interação comunicativa concreto em que apareceu, ele está em paralelo com se tivesse de sole quente ele chamava pa nóis i pa casa dele. Portanto, essa elipse é facilmente preenchida e falante e ouvinte sabem que a forma completa é se tivesse de chuva ele chamava pa nóis i pa casa dele. A interação comunicativa permite elipses, anacolutos e até outras figuras aparentemente mais abstrusas se elucidarem. O que interessa é a eficácia comunicativa. Para tanto, usa-se o princípio de economia, omitindo-se o que fica subentendido. Não é necessário repetir tudo que o interlocutor já sabe. F e O sabem que a forma não marcada de construção sintática em português é sujeito + verbo + objeto. No entanto, tudo isso pode ser infringido conforme o cenário da EIC.
No contexto do diálogo em que essa fala é resposta a uma pergunta, no caso, sobre o senhor José Altino, percebe-se que o ‘não’ inicial é uma espécie de operador de discurso com que o autor da frase coneta sua fala com a pergunta, recurso normal do português. O fato é que recuperadas todas as “estruturas profundas” (de versões antigas da gramática gerativa) normais do português e que tanto F quanto O conhecem, nota-se que o enunciado como um todo pode ser refeito do seguinte modo:

“Não, no que se refere ao compadre José, [quando a gente ia trabalhar para ele] a gente ia para a roça. Se o sol estivesse quente, ele nos chamava para ir para casa dele para refrescamos; se estivesse de chuva, [ele também nos chamava para a casa dele], e por lá passávamos o dia também. Não voltávamos ao [trabalho]”.

O importante na interação comunicativa é o entendimento. Como tanto F quanto O conheciam o cenário (contexto), as regras interacionais e as regras sistêmicas, o interlocutor entendeu o enunciado como recém-refeito sem nenhum problema. Nenhum deles achou que o enunciado original estivesse disforme. Esse é o modo tradicional de se falar localmente, uma vez que todos os membros da comunidade conhecem as “estruturas profundas”, subjacentes a eles. O que eles fazem é, na verdade, manipulá-las, de modo que o que os gerativistas chamavam antigamente de “estruturas superficiais” podem se distanciar bastante delas. O que importa é a eficácia na interação comunicativa, o que sempre se dá, nunca há incomunicação entre os membros da comunidade de fala local.
Certamente mais importantes do que as regras sistêmicas são as regras interacionais. Sem elas não há a menor possibilidade de haver uma interação comunicativa, mesmo que F e O compartilhem um sistema. Este apenas as complementa, permitindo algum entendimento na ausência de referentes. Vejamos as doze regras interacionais que já detectamos até o momento. As regras sistêmicas são, na verdade, parte delas. Elas são as últimas dentre as regras interacionais, em consonância com o pensamento de Coseriu (1968), que afirmou que o sistema está na fala, mas a fala não está no sistema.     

1) F e O ficam próximos um do outro, aproximadamente um metro.
2) F e O ficam de frente um para o outro.
3) F e O devem olhar para o rosto um do outro, se possível para os olhos.
4) a uma solicitação deve corresponder uma satisfação.
5) tanto solicitação quanto satisfação devem ser formuladas em um tom cooperativo, harmonioso, solidário, com delicadeza,
6) a solicitação deve ser precedida de algum tipo de pré-solicitação (por favor, oi etc.).
7) a tomada de turno: enquanto um fala, o outro ouve.
8) se o assunto da interação for sério, F e O devem aparentar um ar de seriedade, sem ser sisudo, carrancudo; se for leve, um ar de leveza, com expressão facial de simpatia (leve sorriso, se possível); a inversão dessas aparências pode parecer antipática, não receptiva etc.
9) F e O devem manter-se atentos, "ligados" durante a interação, sem distrações, olhares para os lados;
10) durante a interação, F e O de vez em quando devem sinalizar que estão atentos, sobretudo na interação telefônica, que ainda “estão na linha”.
11) o encerramento da interação comunicativa não deve ser feito bruscamente, mas com algum tipo de preparação; quem desejar encerrá-la deve sinalizar essa intenção (tá bom, tá, é isso etc.).
l2) em geral, é quem iniciou a interação que toma a iniciativa de encerrá-la; o contrário pode ser tido como não cooperativo, não harmonioso.
13) Regras sistêmicas (inclui toda a ‘gramática’).

As regras interacionais também podem ser infringidas, pelo menos algumas delas. Porém, essa infringência pode acarretar sanção social. No caso da de número 2, por exemplo, se o falante não se postar de frente para seu interlocutor, isso poderá ser interpretado, e o é, como descortesia, com o que não se estabelecerá a comunhão prévia, necessária para que qualquer interação seja eficaz. Mesmo que ela já tenha sido iniciada com sucesso, poderá ser quebrada.
Algo semelhante se pode dizer das demais regras interacionais. Para dar apenas mais um exemplo, vejamos a de número 4. Se O não atender a solicitação de F, este se sentirá ofendido, considerará a atitude de O como não solidária, arrogante, de desprezo etc., tudo menos cooperação e solidariedade.
A única exceção talvez seja a regra de número 1. Se F e O estiverem muito longe um do outro, O poderá não ouvir o que F disser, ou seja, a ineficácia comunicativa terá a ver com algo natural, a não captação do som proferido por F devido à distância física. Por outro lado, se estiverem perto demais um do outro teremos uma atitude socialmente mal-vinda, poderá haver a sensação de que um está invadindo o espaço do outro, o que é até mais agressivo na cultura anglo-saxônica.
As regras interacionais podem ser gerais ou específicas. Regras interacionais gerais são naturalmente aquelas que têm validade para todo o domínio da língua em questão. As regras interacionais específicas são as que têm validade só para a EIC em questão ou para a comunidade de fala em que ela se dá.   
A ideia de que as regras sistêmicas são parte das regras interacionais pode parecer estranha ao leigo. Para dirimir qualquer dúvida, vejamos um exemplo. Quando o ouvinte recebe um enunciado como O rapaz magro ama a moça loira do falante, entende o seguinte, uma vez que compartilham as regras sistêmicas da língua: 1) quem pratica a ação de amar é o rapaz magro e o alvo do amor é a moça loira. Isso acontece porque ambos sabem que, em sua língua, canonicamente o sujeito vem antes do verbo e o objeto vem depois dele; 2) F sabe que O indica que rapaz magro é conhecido de O; 3) tanto F quanto O, bem como os demais membros da comunidade de fala deles, sabem que magro qualifica o referente da expressão O rapaz porque vem depois dela, o que se aplica também a loira relativamente a a moça; 4) F e O sabem também que ama teria que ser amam se, por exemplo, em vez do singular, na posição de sujeito tivéssemos Os rapazes magros. O mesmo se dá com o O de O rapaz magro e o a de a moça loira: 5) estão no singular para concordar com o singular de rapaz e moça, respectivamente; finalmente, 6) magro e loira estão no singular também para concordar com o singular de rapaz e moça, respectivamente. Essas regras apresentam variantes, que as versões antigas da gramática gerativa chamavam de “transformações”. A voz passiva seria uma delas, com o que teríamos 7) A moça loira é amada pelo rapaz magro. Conforme o contexto, diversas outras “transformações” pode ocorrer, às vezes chamadas de paráfrases, como É o rapaz magro que ama a moça loira, É a moça loira que é amada pelo rapaz magro e assim por diante. Assim, detectamos pelo menos sete regras sistêmicas que existem para o entendimento, logo, são auxiliares das regras interacionais.
Em suma, a língua como sistema (gramática) é apenas mais um dos componentes da interação comunicativa, e não o mais importante. Antes das regras sistêmicas é necessário haver o cenário (contexto) e as regras interacionais. As regras sistêmicas não mais do que uma parte das regras interacionais. Aquilo que chamamos até certo ponto inadequadamente de ‘língua’, na verdade compreende (a) cenário, (b) interlocutores (F, O), (c) regras interacionais, nas quais é necessáiro destacar as (c’) regras sistêmicas.

Referências
Capra, Fritjof. 2002. O tao de física. São Paulo: Cultrix.
Coseriu, Eugeniu. 1967. Teoría del lenguaje y linguistica general. Madrid: Gredos, 2a ed.
Couto, Elza Kioko Nakayama Nenoki do Couto & Hildo Honório do Couto. 2013. O discurso ‘fragmentado’ dos meninos de rua e da linguagem rural: uma visão ecolinguística. Comunicação lida no SIMELP – Simpósio Mundial de Estudos de Língua Portuguesa. Universidade Federal de Goiás, Goiânia, 32 de julho de 2013.
Couto, Hildo Honório do. 1974. O falar capelinhense. Uma visão sociolinguistica. Londrina: UEL, 79p.