segunda-feira, 1 de abril de 2013

Análise do Discurso Ecológica (ADE)

A fim de comprovar mais uma vez o holismo praticado pela linguística ecossistêmica apresentada em postagens anteriores, vou tentar mostrar como se pode fazer análise do discurso ecologicamente, vale dizer, vou propor a análise do discurso ecológica (ADE). Por ser parte da linguística ecossistêmica, um nome alternativo para ela é linguística ecossistêmica crítica (LEC), por sugestão tanto da ‘análise do discurso crítica’ quanto da ‘ecolinguística crítica’. Eu não encontrei nenhuma publicação em português em que a expressão ‘análise do discurso ecológica’ tivesse sido usada. O máximo que vi foi ‘análise de discurso ecológico’, estudo que pode ser feito de qualquer perspectiva, inclusive da filosófica. Em uma breve pesquisa na internet constatei que a expressão ecological discourse analysis já foi usada pelo menos por Michael Zukosky, da Temple University, no contexto de seus estudos em antropologia linguística, ecologia política e etnografia da tecnologia e da ciência. Mas, ele quis dizer ‘analysis of ecological discourse’, ou seja, ‘análise de discurso ecológico’, análise que tem por objetivo os discursos ambientalistas, coisa que pode ser feita de diversas perspectivas, sobretudo da da análise do discurso tradicional. Encontrei a expressão também em francês (analyse du discours écologique), espanhol (análisis del discurso ecológica) e alemão (ökologische Diskursanalyse), mas apenas como citação. Não me deparei com nenhum ensaio sobre o assunto. O fato é que muito provavelmente esta seja a primeira vez que se propõe uma análise do discurso que erija seu arcabouço epistemológico no seio da ecologia. No que segue, usarei preferencialmente a expressão ‘análise do discurso ecológica’ e respectiva sigla, ADE, mas, eventualmente poderá aparecer também a designação alternativa ‘linguística ecossistêmica crítica’ e respectiva sigla, LEC, e até a sigla composta ADE/LEC.
As primeiras reflexões sobre linguística ecossistêmica crítica foram feitas em Couto (2013), tendo por base os conceitos da ecologia geral e os que já vinham sendo introduzidos na linguística ecossistêmica. Com efeito, tem sido dito em diversas ocasiões que a linguística ecossistêmica abriga também estudos de ecolinguística crítica, linguística ambiental e/ou linguística ecocrítica, uma vez que leva em conta tando a endoecologia quanto a exoecologia da língua. Sua abordagem é holística. Enfim, contrariamente à esmagadora maioria dos ecolinguistas, esta versão da disciplina leva o conceito de abrangência, holismo e multidisciplinaridade a suas últimas consequências. A linguística ecossistêmica estuda os fenômenos da linguagem sob qualquer forma pela qual possam aparecer.
Diante do que acaba de ser dito, é preciso mostrar como e porque eu tenho certeza de que na ecologia geral e nas suas subdivisões filosófica e sociológica, entre outras, temos grande parte dos conceitos (se não todos) que se fazem necessários para analisar discursos. Comecemos do conceito ecológico mais abrangente, o de ecossistema, que é o todo formado por um população de organismos e suas interações com o meio e entre si. É em seu interior que se desenrola todo o drama que constitui a base de minha argumentação. Todos os demais conceitos emergem de seu interior, o que já justificaria o nome 'linguística ecossistêmica'. Sabemos que ele é encarado como um todo, motivo pelo qual o holismo é o segundo conceito mais abrangente. Ecologicamente, o objeto de estudo deve ser surpreendido em sua totalidade, uma vez que em seu interior nada está isolado. Quando nos atemos a apenas uma faceta dele, facilmente podemos cair na parcialidade, parente próxima do partidarismo e do sectarismo. No interior do todo do ecossistema, o que temos é uma diversidade de seres e fenômenos, entre os quais se dão inúmeras inter-relações. Aliás, estas últimas são definidoras do ecossistema, como nos diz qualquer manual de introdução à Ecologia. Não é necessário recorrer a nenhuma ideologia extraecológica (religiosa, marxista, política, partidária, feminista etc.) para se praticar ADE. A versão da ecolinguística chamada linguística ecossistêmica já encontra, na própria fonte de que emana, tudo de que precisa para erigir seu arcabouço epistemológico, assim como todos os recursos heurísticos para se avaliar criticamente todo e qualquer fenômeno linguístico, aí inclusas as análises ecológicas de qualquer tipo de texto, ou seja, não só de textos ambientalistas. Essa abordagem implica a assunção de uma ideologia ecológica, ou ideologia da vida, se é que vamos falar em ideologia. Ela se apoia nas ideias da Ecologia Profunda, que, como disse seu criador, o filósofo norueguês Arne Naess, não é apenas descritiva e crítica, mas também prescritiva. Ela luta pelos seres vivos de todas as espécies, criticando quem vai contra a defesa da vida na face da terra. Seu ponto de honra é a defesa intransigente da vida. Ela se posiciona contra tudo que vai à vida, em todas as suas formas, e, consequentemente, contra tudo que pode trazer sofrimento. Porém, sempre pacificamente, sem violência, como fazia Mahatma Gandhi, uma das fontes de inspiração da Ecologia Profunda. Afinal, para falar sério não é necessário falar de cara feia.
No caso dos humanos, o sofrimento pode ser físico (natural), mental ou social. Sobre o sofrimento físico não é necessário falar, pois qualquer ato que o provoque salta à visa, não é necessário fazer grandes análises para se chegar à conclusão de que um ato de pedofilia traz sofrimento ao (à) menor de que é vítima, para não falar em violências que causam ferimentos. Os assassinatos cruéis causam o maior tipo de sofrimento que se possa imaginar, a morte. Sofrimento mental pode ser causado pelo assédio moral de um superior ao inferior no ambiente de trabalho, por xingamentos, pelas agressões verbais de um marido bêbado e/ou violento à mulher e/ou aos filhos. Sofrimento social é, por exemplo, expor alguém ao ridículo. É muito importante, porém, lembrarmo-nos de que não são só os humanos que podem ser submetidos ao sofrimento. Os demais animais também. No prefácio a Couto (2007), vemos um relato sobre sofrimento infligido a animais em fazendas do interior. Mas, não são só os animais domésticos que não devem ser submetidos a situações que causam sofrimento. Os demais também. A caça e a pesca lúdicas estão nesse caso. Quando o rei da Espanha foi caçar (matar) elefantes, o objetivo era a “diversão” do monarca. O sofrimento dos elefantes não era posto em questão, como se pode ver muito bem analisado em Ramos (2013).
Um exemplo interessante de situação que provoca sofrimento em todos os sentidos (físico, mental, social) é a situação da mulher em alguns países muçulmanos radicais. Como sabemos, ela tem muito menos direitos do que o homem, e muito mais obrigações do que ele. Caso ela não obedeça, pode ser exposta à execração pública, ser apedrejada e até executada de maneira que para nós parece cruel e perversa. Alguns críticos ocidentais, inclusive alguns antropólogos e sociólogos, alegam que isso faz parte da cultura muçulmana, aceita pelas próprias mulheres muçulmanas. No entanto, lembra Arne Naess, nesses próprios países existe pelo menos uma pequena minoria que é contra esse tipo de comportamento em relação à mulher. É essa minoria que deve receber nosso apoio porque ela luta contra o sofrimento das mulheres em questão. Deve ficar bem claro que, para a ADE, essa defesa não é necessariamente uma atitude feminista. É muito mais do que isso. É luta contra atos que causam sofrimento a um ser humano, que, antes de o ser é um ser vivo, que sofre. O que é mais, por ser um ser vivo social, sofre não só fisicamente, mas também mental e socialmente. Para a linguística ecossistêmica, que segue a Ecologia Profunda, o feminismo é importante, mas, se for radicalizado, torna-se parcial, partidário, a ponto de ficar incondicionalmente contra o homem, atitude inteiramente equivocada. Em casos extremos, essa ideologia pode levar a considerar o homem em geral como um antagonista, um inimigo, não como um ser humano que existe para ser aliado e parceiro da mulher. Já ouvimos falar de um boato segundo o qual, na época do auge do radicalismo feminista, um grupo de mulheres da Holanda tinha por objetivo sequestrar homens, “usá-los” e depois matá-los. Nem é preciso dizer que se trata de uma atitude fanaticamente radical, fundamentalista, que vai frontalmente contra a ideologia ecológica. 
Vejamos alguns temas, entre inúmeros outros, a que a ADE pode se dedicar preferencialmente, bem como alguns conceitos ecológicos que podem ser apropriados por ela. Em Fill (1993) já encontramos sugestões de uma série de assuntos que podem (e devem) ser estudados por uma análise do discurso ecológica, mesmo que avant la lettre. Em primeiro lugar, temos o antropocentrismo, que tem levado os humanos a se acharem no direito de devastar tudo em prol do próprio bem-estar. Em segundo lugar, vem a questão das línguas minoritárias em contraposição às línguas dominantes que ameaçam sua existência. Da perspectiva da ADE, devemos lutar pela sobrevivência das primeiras porque sua extinção implica a descaracterização da identidade de seus falantes, que é o mais importante, o que os faz sofrer. Isso leva a outro tema muito importante, que é o culto do desenvolvimentismo. Desenvolver é procurar crescer, ir de um estado “menor” para outro “maior”, o que implica que o grande é melhor do que o pequeno. Na cultura ocidental, os dois conceitos se opõem, é um ou o outro. Na oriental, como no taoísmo (Couto, 2012: 23-47), e na ecologia profunda, eles são complementares. Vejamos o que está dito em um poema de Ralph Waldo Emerson (1803-1882), em uma disputa entre a montanha e o esquilo. Este disse àquela: Se eu não sou tão grande como você / Você não é tão pequena como eu. Vale dizer, o grande não é necessariamente melhor do que o pequeno. Pelo contrário, o grande precisa do pequeno para se afirmar como tal.
Em Couto (2007: 347-356), há uma longa lista de atitudes preconceituosas que causam sofrimento no público alvo. A primeira é o já mencionado antropocentrismo, que consiste em colocar os humanos no centro do universo, tudo mais existindo apenas parar servi-los. Ele pode se mostrar no que tange à natureza não viva, como ao dizermos que um dia ensolarado é bom tempo, e, se chove, mau tempo. Em se tratando de natureza vegetal, consideramos erva daninha ou mato as plantas que não nos são úteis, mas teimam em nascer junto com as plantações, e assim por diante.  A segunda é o etnocentrismo, que consiste em considerar o que existe em nossa cultura melhor do que o que existe na dos outros, mas não na nossa. O androcentrismo seria uma terceira manifestação da linguagem preconceituosa, uma vez que traz sofrimento à mulher. Algumas de suas variantes recebem o nome de machismo, sexismo e outros. Como se vê, a justa luta das feministas se enquadra aqui também. Ela está no contexto mais amplo da igualdade de direitos e deveres dos seres humanos, independentemente de sexo. Uma quarta seria o classismo ou aulicismo, que consiste em considerar a linguagem das elites urbanas como melhor do que a dos habitantes da zona rural. Tanto que desde os primórdios da língua portuguesa, os corteses eram os habitantes da corte, ao passo que os da vila eram os vilões. Tudo que se refere à vida rural está associado a rude ou rústico, palavras que têm a mesma origem. É o caso de populacho, plebe, pagão, gentio etc., por oposição à elite, ou escol. Os habitantes da cidade agiriam com urbanidade, teriam civilidade (de civis = cidade em latim).
Nesse contexto, poderíamos mencionar o fenômeno conhecido entre os sociolinguistas como hipercorreção. De tanto ouvir dos habitantes da zona urbana que praça e carça são expressões “erradas” e que o “correto” é placa e calça, respectivamente, os habitantes da zona rural acabam se atrapalhando e passam a substituir todos os “r” que ocorrem nessas posições por “l”, produzindo formas que os linguistas têm chamado de “hipercorretas”, tais como “Cleusa” (historicamente), “malmita”, “galfo” etc. Como lhe dizem que veio e faia devem ser substituídos por velho e falha, respectivamente, colocam o “lh” mesmo onde há “i” até mesmo no português estatal (padrão), como “melha” por “meia”, “pilhor” por “pior” etc. Ora, isso é resultado de atitudes discriminatórias contra o modo de falar dos habitantes da zona rural, e toda discriminação produz sofrimento social, uma vez que ridiculariza o discriminado.
Ainda no caso da linguagem rural, em que se diz nóis vai trabaiá, considerá-la como errada não é uma atitude ecologicamente correta. Na verdade, não se trata de linguagem “errada” nem de uma “deformação” da “boa” linguagem do português estatal (padrão). Pelo contrário, é a linguagem rural que é concreta, real, existe efetivamente como meio de comunicação entre os habitantes das diversas comunidades rurais.  É a linguagem estatal que é uma abstração feita a partir das diversas variedades linguísticas que constituem o que chamamos de língua portuguesa como um todo. Assim se poderia dizer que ela não está presente em atos de interação concretos que se dão entre membros de comunidades de fala concretas. Em suma, a linguagem rural e a da periferia das cidades, que é uma continuação dela, é pura e simplesmente uma manifestação da diversidade dialetal existente no seio do ecossistema linguístico brasileiro. Diversidade significa riqueza, como vemos na ecologia geral.
Passando à consideração de alguns conceitos ecológicos que podem (e devem) ser usados na análise de textos, começamos justamente pelo de diversidade. Sua aceitação implica uma atitude de tolerância para com o outro, sobretudo quando é diferente. A não aceitação implica intolerância, o que pode conduzir à agressividade e à violência, sobretudo contra as minorias de todos os tipos. Sua aceitação pressupõe uma política de cooperação e harmonia, conceito que já está previsto na própria ecologia biológica, no caso, nas relações harmônicas, que podem se dar não só intraespecífica, mas também interespecificamente. No primeiro caso, temos as relações entre os seres humanos; no segundo, entre eles e seres de outras espécies de animais. O contrário seria a subordinação dos mais fracos aos mais fortes e a consequente imposição da vontade dos segundos sobre os primeiros. Como se vê, aqui entra a questão do poder. Isso pode levar ao fundamentalismo que, como sabemos, frequentemente chega até à violência. Por isso, a Ecologia Profunda que nós sigo recomenda uma atitude à la Gandhi, isto é, firme, porém, não violenta.
Intimamente associada à diversidade temos a questão das interações (inter-relações, relações). No interior do ecossistema, nada está isolado, tudo está de alguma forma relacionado a tudo, direta ou indiretamente. Havendo uma diversidade de seres e inter-relações, pode-se dizer do próprio ecossistema que ele é uma cadeia ou teia de inter-relações que se dão entre organismos, entre organismos e meio, e assim por diante. Haverá tanto mais relações quanto mais diversidade de organismos e de meio houver no ecossistema, de modo que os dois conceitos estão intimamente inter-relacionados. Aí temos mais um tipo de inter-relação. As relações estão intimamente associadas à harmonia do todo, uma vez que é em seu interior que elas se dão. Elas são multilaterais, multipolares e policêntricas. Os totalitarismos, ao contrário, são monocêntricos e centrípetos, motivo pelo qual muitas vezes levam ao conflito, uma vez que não aceitam a diversidade que as inter-relações multilaterais implicam.
Ainda na dinâmica das inter-relações, há uma constante adaptação de organismos ao meio e do meio aos organismos, além das adaptações dos próprios organismos entre si. A adaptação do meio aos organismos era menor no começo filogenético da vida, mas vem se intensificando a cada dia que passa, sobretudo devido ao desenvolvimento tecnológico. O mundo e a cultura (inclusive a língua) são dinâmicos, estão sempre mudando, se adaptando às novas situações que a natureza (e a cultura) lhes apresenta. Não se adaptar é oferecer resistência, o que pode também levar à desarmonia, ao conflito e à violência, quer contra outros seres humanos, quer contra os demais seres vivos e à natureza em geral, como se vê nas ações predatórias. A visão darwinista falava em competição e sobrevivência do mais forte. As novas pesquisas em ecologia têm mostrado que sobrevive mais aquele que se adapta mais, não necessariamente o mais forte. Se fosse assim, os dinossauros não teriam desaparecido. Adaptar-se é procurar viver em harmonia, conceito central do taoísmo e, indiretamente, da Ecologia Profunda (Couto, 2012: 23-67).
Adaptação é a cara da moeda cuja coroa é a evolução. Hoje em dia é sobejamente sabido que a evolução se dá ciclicamente. Tudo na natureza se move em ciclos. Veja-se a alternância dia/noite, as estações do ano, o ritmo biológico de nosso organismo, entre outros. Na própria cultura, aí inclusa a linguagem, as mudanças se dão por ciclos. Basta observar a moda. Quantas vezes já não vimos os estilistas, os que ditam a moda, dizerem que agora o chique é o que se fazia nos anos 60 ou nos anos 80, por exemplo? Basta criar-se um termo para designar isso, no caso retrô. Em Couto (2012: 179-199) há alguns exemplos de evolução cíclica na literatura e na linguagem. Com isso, entramos no domínio da reciclagem. Ela tem a ver diretamente com o consumismo capitalista desenfreado. Só recicla quem tem consciência de que o consumismo e a descartabilidade são prejudiciais à manutenção da vida na face da terra, sobretudo a longo prazo. Para agir assim, é necessário que se pratique uma economia sustentável, que leve a ecologia em consideração.
A ideologia ecológica defende os três ‘r’, ou seja, redução, reutilização e reciclagem. Descartar tudo em vez de reduzir, reutilizar e reciclar exige uso e abuso dos recursos da natureza, e não só da natureza viva. Nossa intervenção nela está cada vez mais predatória. Isso traz sofrimento aos seres vivos, como o consumo exagerado de carne, que exige o sacrifício de centenas, de milhares, de milhões de animais. A própria criação extensiva de gado de corte, e até de leiteiro, exige o estabelecimento de imensas pastagens, com uma única espécie de gramínea ou capim, a braquiária, por exemplo, o que implica um sacrifício na diversidade da flora e até da fauna. Para reduzir a última, como no caso dos insetos, recorre-se aos pesticidas. Aqui a redução é prejudicial, uma vez que reduz a diversidade de seres vivos no ecossistema, o que traz sofrimento a esses seres.
Voltando à visão holística, ao todo do ecossistema, notamos que nessa qualidade ele se inter-relaciona com os ecossistemas vizinhos, fornecendo e recebendo matéria e energia deles. Dito em outras palavras, esse todo apresenta a característica da abertura, às vezes também chamada de porosidade. Essa característica do ecossistema, juntamente com a diversidade, enseja a tolerância para com os de outras espécies, outros grupos étnicos, vai contra o etnocentrismo, o racismo e os demais “ismos” acima mencionados. Ela nos ensina que nada está isolado, portanto, recebe influência de fora, além de enviar seus influxos para fora. Ela nos leva a aceitar a ideia do outro, mesmo quando não concordamos com ela. Aceitá-la não no sentido de adotá-la, mas no de respeitá-la. Afinal, o certo e o errado são conceitos criados socialmente, logo, são relativos. Além de esses conceitos não existirem na natureza, variam de comunidade para comunidade e de um segmento social para outro.
Existem diversos outros conceitos ecológicos de que se pode lançar mão na ADE. Entre eles, temos relações harmônicas versus relações desarmônicas, tanto intraespecíficas quanto interespecíficas. Entre as relações harmônicas interespecíficas, poderíamos mencionar o inquilinismo, o comensalismo e o mutualismo. No que tange às relações desarmônicas interespecíficas, sobressaem-se o predatismo (predador versus presa) e o parasitismo. Entre as relações desarmônicas intraespecíficas, poderíamos trazer à baila a competição, que se dá também nas interespecíficas. Aquilo que se chama ‘comunhão’ (pressuposto para a interação comunicativa) se enquadra nas relações harmônicas intraespecíficas. Enfim, na própria ecologia geral, bem como em suas vertentes filosófica, sociológica etc., já temos os conceitos necessários e suficientes para efetuarmos estudos críticos sobre textos que falam de diversos assuntos. Nos dias atuais não precisamos mais ter medo do biologismo. Usar a ecologia geral como base para os estudos culturais (e linguísticos) é assumir o ponto de vista da vida, justamente estudada pela Biologia, de que a ecologia geral (e a linguística) faz parte.
Uma vez que no próprio âmbito da Ecolinguística já existe a possibilidade de se fazerem análises e críticas de textos, de discursos, sobretudo antiambientalistas, como fazem a ‘ecolinguística crítica’, ‘a linguística ambiental’ e a ‘linguística ecocrítica’, é necessário que demos algumas razões para se propor a linguística ecossistêmica crítica ou análise do discurso ecológica. Com efeito, a ecolinguística crítica já tem estudado, assim como a análise do discurso tradicional, temas como os recém-mencionados, além do feminismo, do ‘racismo’, da ‘homofobia’ e outras. Tudo isso é muito importante. No entanto, há algo maior que todos esses temas, a que estão subordinados, vale dizer, a defesa da vida na face da terra, em que entra a luta contra tudo que traz sofrimento físico, mental ou social, já que somos seres biopsicossociais. O feminismo, a luta dos movimentos negros e outras devem ser respeitadas não por se tratar de “mulheres” e “negros”, respectivamente, mas por se tratar de seres humanos que sofrem com alguns tratamentos discriminatórios. Destacá-los como devendo ser protegidos por serem mulheres e negros já á uma atitude separatista, que pode estimular o antagonismo. Devemos proteger todas as espécies vivas (animais e vegetais) não em detrimento dos chamados “animais racionais”. Devemos defender os direitos da mulher e dos negros não por serem mulheres e negros, mas por serem seres humanos iguais a quaisquer outros. Ser a favor da vida animal e vegetal não é ser contra a vida dos humanos. Pelo contrário, é inserir a causa deles em uma luta maior, uma vez que se as demais espécies desaparecerem nós também desaparecemos. O mesmo tipo de argumento vale para outras “ideologias” atuais. Lutar contra o antropocentrismo, o androcentrismo e o classismo é lutar pela vida, é ir contra algo que provoca sofrimento.
Devemos lutar inclusive contra a depredação da natureza não animada. Se não cuidarmos das águas, elas podem ser poluídas a tal ponto que podem envenenar não só a nós, mas também aos demais seres vivos. Elas podem mesmo desaparecer, com o que todos pereceriam. Do mesmo modo devemos ter cuidado para não poluir o ar demasiadamente. Do contrário não teremos oxigênio para respirar. Não devemos usar determinados produtos que causam o efeito estufa, pois, do contrário, poderemos morrer todos assados ou, então, com câncer de pele. Não se trata de uma visão apocalíptica nem catastrofista. Trata-se de ser realista. O que já vimos até agora aponta claramente para essa direção. 
Vejamos alguns argumentos que justificam, a nosso ver, a necessidade de uma análise do discurso ecológica, complementando a ecolinguística crítica (EC). Primeiro, a ADE/LEC parte do ecossistema, o locus dos seres vivos. A EC não necessariamente. Ela até pode fazê-lo. No entanto, seu ponto de vista privilegiado é a ideologia política. Ora, ideologia direciona, é ‘tendenciosa”, tanto que Marx a chamou de “falsa consciência”. De fato, a EC é eminentemente de cariz político, ao passo que a ADE é ecológica, logo, ligada à biologia, a ciência da vida. Segundo, a EC usa conceitos ecológicos consciente e explicitamente como metáfora. A ADE é uma disciplina da ecologia geral. Os conceitos ecológicos não são transplantados da ‘ecologia’ para ela. Eles são partes naturais de seu arcabouço epistemológico. Praticar ADE é praticar Ecologia. Terceiro, notamos que às vezes, a EC se confunde com a AD em geral, como mostram alguns trabalhos publicados. A ADE, nunca. Por ser ecológica, ela tem um viés, sim, mas o viés da defesa da vida. Quarto, para a ADE, e para a visão ecológica de mundo em geral, essas questões devem ser incluídas no contexto mais amplo e abrangente da vida, da preservação dela na face da terra, bem como no da recusa de tudo que pode trazer sofrimento.
Gostaria de terminar lembrando algumas das principais questões que precisam ser levadas em conta por quem quer que seja que deseje estudar, avaliar, analisar qualquer texto ou discurso da perspectiva da ADE. Primeiro, é preciso indagar sobre o contexto em que o assunto do texto/discurso a ser examinado está inserido. Na linguística ecossistêmica, a que ela pertence, a resposta a essa pergunta já traz o referencial e o universo de discurso de que a questão faz parte, como se fosse o ecossistema em que as relações a ser examinadas estão incluídas. Com isso, já somos levados à segunda questão, a do holismo. O assunto examinado deve ser encarado no âmbito da totalidade das interações de que participa. Isso leva à terceira questão, que é a da diversidade. Esta tem toda uma série de consequências, algumas das quais estão discutidas acima no presente capítulo. Uma quarta questão é a da evolução. Tanto a natureza quanto a cultura e a mente estão sempre mudando. Em quinto lugar, nota-se que essa evolução é o resultado de uma constante adaptação às novas circunstâncias, às novas configurações da rede de inter-relações. Tudo que não se adapta é excluído, sucumbe ou desaparece. Em sexto lugar, sabe-se que isso ocorre porque o todo delimitado pelo observador apresenta a característica da abertura ou porosidade. Ele está em uma perene interação com o que se encontra em volta. Em sétimo lugar, os humanos precisam ter o cuidado de apenas usar os recursos da natureza, não abusá-los. Nela “nada se cria, nada se forma; tudo se transforma”, há uma reciclagem constante dos recursos disponíveis. Como os humanos têm consciência, precisam também reduzir e reutilizar tudo que tiverem que utilizar. Em oitavo lugar, é bom lembrar que essa atitude leva à sustentabilidade, à garantia de que as gerações futuras também poderão satisfazer suas necessidades. Em nono lugar, é necessário lembrar que só age assim quem tem uma visão de longo prazo, que, de novo, é a da natureza, que não tem pressa. Por fim, nota-se em todas essas questões que a ADE/LEC não é apenas descritiva e crítica relativamente ao objeto de estudo. Pelo contrário, ela pratica o prescritivismo, uma vez que segue a ideologia ecológica (ideologia da vida) da Ecologia Profunda, que combate com ardor tudo que pode trazer sofrimento.

Referências
Couto, Hildo Honório do. 2007. Ecolinguística: Estudo das relações entre língua e meio ambiente. Brasília: Thesaurus.
_______. O tao da linguagem: Um caminho suave para a redação. Campinas: Pontes.
_______. 2013. O que é ecolinguística, afinal? Cadernos de linguagem e sociedade v. 14, n. 1, p. 302. 
Fill, Alwin. 1993. Ökologie: Eine Einführung. Tübingen: Gunter Narr Verlag. 
Ramos, Rui. 2013. O rei de Espanha foi caçar elefantes: A construção discursiva do evento nos media portugueses. Cadernos de linguagem e sociedade v. 14, n. 1.

NOTA
Sob forma revista e drasticamente ampliada, este texto saiu no livro Antropologia do imaginário, ecolinguística e metáfora (Brasília: Thesaurus, 2014, p. 27-41), organizado por Elza K. N. do Couto, Ema M. Dunck-Cintra & Lorena A. O. Borges, com o título de: "Linguística ecossistêmica crítica ou Análise do discurso ecológica".
A versão publicada no livro foi traduzida para o inglês e está disponível sob o título de “Critical ecosystemic linguistics” em:
http://ecosystemic-linguistics.blogspot.com.br/2015/11/ecological-discourse-analysis-eda.html

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Linguística Ecossistêmica


NOTA:

Este texto está publicado com o mesmo título, em formato revisto e ampliado, em
Ecolinguística: Revista Brasileira de Ecologia e Linguagem, v. 01, n. 01, p. 47-81, 2015, disponível em:

Ecolinguística
:
Revista Brasileira de Ecologia e Linguagem
, v. 01, n. 01, p. 47
-
81
, 2015
.
https://periodicos.unb.br/index.php/erbel/article/view/9967/8800

No site em inglês https://ecosystemic-linguistics.blogspot.com.br encontram-se os textos "Ecosystemic linguistics I" e "Ecosystemic linguistics II", que apresentam a Linguística Ecossistêmica de forma um tanto diferente.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Emergência dos pronomes pessoais na ecologia da interação comunicativa

Nesta postagem vou tentar mostrar que as pessoas do discurso, mais conhecidas como "pronomes pessoais", são parte integrante da ecologia da interação comunicativa. A ecologia da interação comunicativa se insere na Ecolinguística, que tem sido definida como sendo o estudo das relações entre língua e meio ambiente, que é de natureza tripla, ou seja, existem o MA natural, o MA mental e o MA social da língua, assunto discutido em postagens anteriores. Para mais detalhes sobre a Ecolinguística em geral e sobre a própria ecologia da interação comunicativa em especial, pode-se consultar (Couto 2007) bem como as referidas postagens.
De acordo com o meu modo de ver, os chamados "pronomes pessoais" não têm sido tratados de modo adequado pelas gramáticas tradicionais. Entre os inúmeros problemas que se poderiam levantar, temos o fato de considerarem 'nós' como plural de 'eu' e 'vós' como plural de 'tu'. Outro problema seria o considerarem 'ele' e derivados (ela, eles, elas) também como "pronomes". Um terceiro problema é o fato de considerarem os pronomes como substitutos dos nomes, como já dá a entender a própria palavra 'pronome'. No que tange à definição que dão a cada uma das três formas básicas, não há muito a criticar. Cunha (1970: 200), por exemplo, afirma que 'eu' designa a pessoa que fala, 'tu' refere-se à pessoa a quem se fala e as demais quatro formas indicam de quem ou de que se fala. Até aí não há aparentemente nada a criticar. O problema começa quando o gramático em questão, de resto como todos os demais que o precederam, com raríssimas exceções, apresenta as conceituações inadequadas recém-vistas.
Uma das exceções é Ali (1969: 61), que afirma que "Pronome é a palavra que denota o ente ou a ele se refere, considerando-o apenas como pessoa do discurso". Ali continua salientando que "Pessoas do discurso se chamam o indivíduo que fala, o indivíduo com quem se fala e a pessoa ou cousa de que se fala". O mais importante aqui é, porém, o salientar ele que "o plural de nós significa, não eu + eu, e sim eu + tu, eu + ele (ou ela), eu + vós ou eu + eles (ou elas)". Fernandes (1940: 172-174) defende a mesma ideia, acrescentando que "o sentido da forma nós não admite que a possamos considerar como plural de eu, sob pena de falsearmos a noção de pluralização". Ele conclui afirmando que "identicamente, também vós não é, em rigor plural de tu".
Esse procedimento recua pelo menos a meados do século XVII. Em 1660, saiu a Grammaire générale et raisonnée, de Arnauld; Lancelot, de que tenho a edição de (1830/1969), prefaciada por Michel Foucault. Nessa obra clássica, pelo menos se dá uma razão para se chamarem os "pronomes" como substitutos de nomes, de substantivos. Assim, os homens "reconheceram que era frequentemente inútil e de mau gosto nomearem-se a si mesmos. Por isso, introduziram o pronome da primeira pessoa a fim de colocá-lo no lugar do nome de quem fala: Ego; moi, je" (eu). Eles continuam dizendo que "para não se sentirem obrigados a nomear aquele a quem se fala, consideraram conveniente denominá-lo por uma palavra a que chamaram de pronome da segunda pessoa: Tu, toi ou vous" (tu, você). Por fim, "a fim de não serem obrigados a repetir os nomes das outras pessoas ou das outras coisas de que se fala, eles inventaram os pronomes da terceira pessoa: Ille, illa, illud; il, elle, lui, etc." (ele, ela etc.) (p. 43).
Quem viu a real posição dos "pronomes pessoais" não foi um gramático nem sequer um linguista, mas o filósofo e pai da semiótica moderna Charles Sanders Peirce. Ao falar de expressões indiciais no ensaio "O ícone, o indicador e o símbolo", em uma nota de rodapé ele afirmou que "não há razão para dizer que 'eu', 'tu', 'este', 'aquele' se colocam no lugar de nomes; eles apontam coisas, da maneira a mais direta possível". Continua dizendo que o nome é que "é um substituto imperfeito do pronome", uma vez que "um nome [...] não indica o objeto que denota; e quando se emprega um nome para referir aquilo a propósito de que se está falando, confia-se na experiência do ouvinte para suprir a incapacidade de o nome atuar como o pronome de imediato atua" (Peirce 1972: 122-123).
Um linguista que tratou do assunto de uma perspectiva que se assemelha à da Ecolinguística é Émile Benveniste. Em Benveniste (1995: 277-283), ele chama 'ele' de não pessoa que, quando muito, entraria em uma "representação sintática", ou seja, aquilo que outros chamam de referência anafórica. Ele deixa implícito que 'ele' pode ser qualquer coisa ou pessoa de que se fala, inclusive o emissor (eu) e o receptor (tu). O locutor pode falar até inclusive de si mesmo, como 'me' e 'mim', e do ouvinte, como 'te' e 'ti'. Tanto que Benveniste afirma que ''ele' pode ser substituído por qualquer outra palavra, sobretudo nominal, da língua, ao passo que 'eu' e 'tu' não. Em cada ato de interação comunicativa eles são únicos e insubstituíveis. Mais próximo de nós, temos Roncarati (2010), que fala em "cadeia de referência", ou "cadeia referencial", equivalente aproximado da correferência de outras abordagens. Assim, em um texto, posso usar "João" em uma primeira aparição, mas, "ele" em uma segunda, "o" em uma terceira (ou até mesmo em uma segunda), "lhe" em uma quarta e assim por diante. O referente permanece sempre o mesmo. O uso de "ele", "o" e "lhe" se deve apenas a razões sintáticas. Quando os usa, porém, o narrador está pensando sempre na mesma pessoa ou coisa. Por outras palavras, quando usa "ele", "o" ou "lhe" não os associa à palavra "João" mencionada anteriormente na frase, mas a uma pessoa que essa palavra designa.
Os "pronomes" em tela são actantes da ecologia da interação comunicativa e respectivos circunstantes, como os chamados "pronomes de terceira pessoa". No seu estudo, normalmente, se tem partido do esquema da comunicação, simplificado pelos linguistas como se vê logo abaixo.

      C
   /      \
E--M--R

Esse esquema mostra que para uma mensagem (M) enviada por um emissor (E) a um receptor (R) ser entendida tem que estar formulada em uma linguagem ou código (C) comum a E e R. Esse modelo é por demais estático, dando a entender que a interação comunicativa é um circuito fechado, fato visível também na formulação de Saussure (1983: 19), que fala em "circuito da fala". O problema é que tanto Saussure quanto todos os estruturalistas que seguiram sua genial proposta veem a língua como um sistema de regras fechado, estático, considerando a "fala" como mera realização hic et nunc desse sistema. Para essa visão parcial da linguagem em geral, o modelo recém-visto é suficiente. Acontece que, como o também estruturalista Eugenio Coseriu salientou, a língua é basicamente interação, ela é o como os membros da comunidade interagem entre si verbalmente (Coseriu 1967). Portanto, o modelo é inadequado e insuficiente.
Para o que aqui interessa, essa concepção de língua como atividade, que já existia em Humboldt (para ele ela era 'enérgeia' não 'ergon'), pode ser contemplada partindo do próprio modelo de comunicação dos engenheiros da comunicação, contanto que levemos em conta mais dois componentes que eles próprios incluíam, mas que os linguistas ignoraram. Trata-se da fonte (FO) e do destino (DE) da mensagem, como se pode ver em Shannon & Weaver (1949: 34). Com isso, o modelo anterior é substituído pelo seguinte:

               C
           /        \
FO---E--M--R---DE

Um dos exemplos dado pelos próprios engenheiros é o de um teletrama que alguém (FO) quer enviar a um amigo distante (DE). Ele vai a uma agência dos Correios e entrega o texto a um funcionário (E) que o envia em forma codificada a outra agência dos Correios em que outro funcionário (R) o decodifica e envia ao destinatário (DE) final do telegrama, embora hoje em dia isso talvez já não aconteça exatamente assim.
O que importa no momento é que esse modelo contempla todos os atores (reais e/ou potenciais) de uma interação comunicativa. O emissor da mensagem é 'eu' e o receptor é 'tu'. A fonte (FO) corresponde àquela pessoa ou pessoas que estão com o emissor ou falante, ou que estão de algum modo associadas a ele. O destinatário (DE) corresponde a quem está junto com o receptor, ou está associado a ele de algum modo. Com isso, FO equivale a um primeiro 'ele', aquele que está com o emissor, ou seja, ELE1, enquanto que DE equivale ao 'ele' que está com o receptor, o ELE2. Resumidamente, temos as seguintes equivalências até agora:

eu --- E
tu --- R
ele -- FO, DE

Como o emissor ou falante é o centro da interação comunicativa, ele pode juntar (e junta) outra ou outras pessoas a si mesmo. Quando ele se dirige ao receptor ou ouvinte incluindo o ELE1, diz não mais 'eu', mas 'nós'. Trata-se do 'nós' exclusivo, uma vez que não inclui o ouvinte. Se ele incluir o ouvinte (R), mesmo excluindo ELE1, teremos o 'nós' inclusivo. Mas, a forma 'nós' pode referir-se a outras pessoas, ou conjunto de pessoas, tanto actantes quanto circunstantes. Elas estão apresentadas nos exemplos de (1).

(1)
(a) eu + ELE1 = nós1 exclusivo (exclui o ouvinte)
(b) eu + tu = nós2 inclusivo (inclui o ouvinte)
(c) eu + ELE2 = nós3
(d) eu + ELE1 + ELE2 = nós4
(e) eu + tu + ELE1 = nós5
(f) eu + tu + ELE2 = nós6
(g) eu + tu + ELE1 + ELE2 = nós7

Levando-se em conta que o 'ele' que está com o falante e o que está com o ouvinte podem ser também uma coisa (eu e o que trago comigo, tu e o que trazes contigo), constatamos que a forma 'nós' pode se referir a pelo menos sete pessoas e/ou coisas diferentes. Normalmente, não nos damos conta dessas diferentes significações que o português sempre expressa por 'nós'. No entanto, em algumas línguas há formas diferentes para referentes distintos. O tupi e o guarani têm a forma 'oré' para o 'nós' exclusivo e 'jandé' para o 'nós' inclusivo. No crioulo inglês da Papua-Nova Guiné conhecido como tok pisin, há outras possibilidades, que examinaremos mais abaixo.
A ideia de que tanto EU quanto TU têm ao seu lado aqueles/aquilo que lhes diz respeito é explicitada em muitas línguas do mundo. De acordo com Alexandre Timbane, no grupo linguístico tsonga "Cada indivíduo é representante (imagem) do seu grupo social. Quer dizer, quando se fala com um ronga, nele reflete-se a cultura, os hábitos, os costumes e língua do seu povo. É neste sentido que se pode dizer que cada um carrega o seu grupo étnico, seu grupo linguístico donde adquiriu as regras de comportamento em sociedade" (Timbane 2014, p. 100).
O fato de 'vós' não ser mero plural de 'tu' (não se refere a 'tu + tu') se justifica pelos mesmos motivos, vale dizer, 'vós' pode se referir a diversas combinações de participantes e/ou circunstantes da interação comunicativa. A primeira e mais óbvia é "tu + ELE2". Em (2) temos todas as três possibilidades combinatórias de tu, ou seja, aquelas que são dadas pela ecologia da interação comunicativa. Note-se que 'tu' sempre aparece, pois é o "pronome de segunda pessoa" por excelência.

(2)
(a) tu + ELE2 = vós1
(b) tu + ELE1 = vós2
(c) tu + ELE2 + ELE1 = vós3

Provavelmente por 'tu' só emergir quando proferido por 'eu', ou seja, por ser secundário relativamente a 'eu', ele tem, no máximo três referentes, contra os sete de 'eu' que, como veremos mais abaixo muitas são implementadas em outras línguas, como o tok pisin.
Por fim, temos a forma 'ele'. Como ela indica aquele(a), aqueles(as) ou aquilo de que se fala, isto é, ao assunto do diálogo, seus referentes são em número infinito, uma vez que podemos falar de qualquer coisa, de tudo, inclusive de 'eu' e de 'tu', como já observado acima. Mas, pelo menos dois referentes emergem naturalmente fa ecologia da interação comunicativa. Quando o falante profere a forma 'ele', pode estar se referindo a ELE1 ou a ELE2, como em (3), abaixo. Se proferir a forma de plural 'eles', pode estar se referindo, em primeiro lugar, a ELE1 + ELE2, exemplificado em (3c). Pode estar se reportando também a dois ou mais ELE1 (3d), a dois ou mais ELE2 (3e), a dois ou mais ELE1 + ELE2 (3f), a dois ou mais ELE2 + ELE1 e assim por diante. Sempre que se tratar de mais de um ELE, os referentes serão codificados pela forma plural 'eles'. Sinoticamente, temos (o "etc." mostra que as possibilidades são em aberto, tendendo ao infinito):

(3)
(a) ELE1 = ele1
(b) ELE2 = ele2
(c) ELE1 + ELE2 = eles1
(d) ELE1a + ELE1b = eles2
(e) ELE2a + ELE2b = eles3
(f) ELE1 +ELE1a + ELE2 = eles4
(g) ELE2 + ELE2a +ELE1 = eles4
(h) ELE1a + ELE1b +ELE2n + ELE2a + ELE2b + ELE2n
etc.

A flexão de feminino 'ela' e respectivo plural 'elas' não apresentam problema nenhum. A fórmula é a mesma para 'ele' e 'eles'. As flexões de feminino e plural são algo que acontece com qualquer substantivo, por razões meramente sintáticas que nada têm a ver com o conteúdo da mensagem. Isso é um forte argumento em prol da interpretação dessa forma "pronominal" como sendo um nome.
Segundo as teorias sintáticas, no texto, 'ele' e derivados podem referir-se aparentemente a um substantivo já mencionado, como acontece na relação anafórica. Vejamos os exemplos (4).

(4) Nossa escola contratou 'nova professora' de Português. 'Ela' já se apresentou aos alunos, que 'a' acolheram muito bem, dando-'lhe' as boas vindas.

As teorias linguísticas que veem a língua como basicamente um sistema de regras, consideram que, nesse oração, 'Ela' se refere a 'nova professora', 'a' se refere a 'Ela' e 'lhe' se refere a 'a'. No entanto, essa é uma interpretação meramente sintática. Tenho certeza de que nenhum falante de português que proferir esse enunciado achará que está se referindo a 'Ela' ao dizer 'a', nem se reportando a 'nova professora' ao dizer 'Ela'. Em todos os casos estará sempre se referindo a uma pessoa específica, no caso a pessoa que foi contratada como professora de português na nossa escola.
No exemplo que acaba de ser discutido não fica claro se 'ela' se refere a ELE1 ou a ELE2, porque, como acabamos de ver, 'ele/ela' representa um ou outro deles, dependendo da configuração da ecologia da interação comunicativa em questão. Em outros casos, porém, o referente de 'ele' (ou de 'ela') fica bem claro. Vejamos o exemplo (5).

(5) 'Minha esposa' é professora. 'Ela' leciona Português.

Não há dúvida nenhuma de que se trata de ELE1 (aquele que está do lado do falante), sendo que na oração (6) 'ela' e 'a' indicam inequivocamente ELE2 (aquele que está do lado do ouvinte).

(6) 'Tua esposa' á muito simpática. Ontem 'ela' convidou a minha a visitá-'la' no fim de semana

Se juntarmos as duas formas, temos o que se vê em (8), em que o plural 'elas' indica claramente ELE1 + ELE2.

(7) 'A minha esposa' e 'a tua' se dão muito bem. 'Elas' sempre preparam aulas juntas

As demais possibilidades são infinitas, como já dito. Entretanto, valeria a pena dar pelo menos mais dois exemplos. Em (9) temos um 'eles' que indica ELE1a + ELE1b, enquanto que em (10) o 'eles' se reporta a ELE2a + ELE2b. No primeiro caso, trata-se de mais de um ELE que estão do lado do falante; no segundo, trata-se de mais de um ELE estão com o ouvinte.

(8) Eu tenho um 'cachorro' (ELE1a) e um 'gato' (ELE1b). 'Eles' estão sempre brigando
(9) Tu tens um 'cachorro' (ELE2a) e um 'gato' (ELE2b). 'Eles' nunca brigam

A forma brasileira 'você' e respectivo plural 'vocês' introduz uma pequena complicação no quadro esboçado acima. No entanto, a primeira forma é pura e simplesmente um substituto de 'tu' e a segunda de 'vós'. Vale dizer, o referente é o mesmo, é dado pela interação comunicativa, que é universal. A diferença entre 'você' e 'tu' está apenas na aparência, no significante, uma vez que o significado é o mesmo, a pessoa com quem se fala. É bem verdade que o plural de 'você' se forma como o plural de qualquer forma nominal (substantivo e adjetivo), mediante o acréscimo de um -s. No caso de 'tu" e 'vós', são simplesmente dois itens lexicais independentes que se relacionam só semanticamente, ao passo que 'você' e 'vocês' se relacionam também gramaticalmente ou, de modo mais específico, morfologicamente.
Pode ser que haja duas explicações para o que se passa com 'você/vocês'. Primeiro, o mero acréscimo de -s à forma de singular seria um modo menos marcado de se expressar a pluralidade, uma vez que se trata provavelmente da regra mais geral da morfossintaxe portuguesa. Essa regra diria simplesmente: "Para formar o plural dos nomes, acrescente -s a eles, como terminação". Segundo, pode ser que a etimologia também tenha alguma influência no processo. Sabemos que 'você' vem de algo como 'vostra mercede', que é um sintagma nominal, portanto, passível de pluralização mediante acréscimo de -s. Historicamente, ela passou por formas intermediárias como 'vosmecê', 'vos'cê' ('vancê') até chegar a 'você'. Posteriormente, houve a redução a 'ocê' e até a 'cê'. A forma ocê é mais usada na zona rural, alternando com cê, enquanto que nas zonas urbanas se usa mais cê, frequentemente em alternância com você.
O crioulo inglês da Papua-Nova Guiné, conhecido como tok pisin, lexicaliza mais algumas das possibilidades mencionadas. O "eu" simples é mi. Para o nosso 'nós' a língua tem três formas. Para expressar "eu + ELE1" (10a) ou "eu + ELE2" (10c), temos mitupela. Para "eu + ELE1 + ELE2" (10d) temos mitripela. Quanto a "eu + tu + ELE1 + ELE2" (10g), dá 'yumi' ou 'yumipela'. As formas de (10a), (10c) e (10b) são chamadas de exclusivas, uma vez que excluem o ouvinte (tu). As formas que incluem o ouvinte (tu), as inclusivas, são yumitupela, que lexicaliza a possibilidade (10b), ou seja, "eu + tu". A possibilidade "eu + tu + ELE2" (10f) é representada em tok pisin por yumitripela. Repitamos as possibilidades de (10), incluindo as formas do tok pisin. Vê-se que a língua só não lexicaliza a possibilidade (10e).

(10)
(a) eu + ELE1 = nós1 = 'mitupela' (exclusivo; exclui o ouvinte)
(b) eu + tu = nós2 = 'yumitupela' (inclusivo; inclui o ouvinte)
(c) eu + ELE2 = nós3 = 'mitupela' (exclusivo, exclui o ouvinte)
(d) eu + ELE1 + ELE2 = nós4 = 'mitripela'
(e) eu + tu + ELE1 = nós5
(f) eu + tu + ELE2 = nós6 = 'yumitripela'
(g) eu + tu + ELE1 + ELE2 = nós7 = 'yumi' ou 'yumipela'
(h) eu = 'mi'

As formas de segunda pessoa também lexicalizam muito mais das possibilidades teóricas do que o que se vê no português ou nas línguas ocidentais em geral. Considerando que "tu" simples é yu, "tu + ELE2" (11a) ou "tu + ELE1” (11b) correspondem a yutupela. A (11c), ou seja, "tu + ELE2 + ELE1" corresponde o yutripela tok pisin. Se a essa última possibilidade (11c) acrescentarmos mais um ELE1a ou um ELE2a, teremos yupela, como em (11d).

(11)
(a) tu + ELE2 = vós1 = 'yutupela'
(b) tu + ELE1 = vós2 = 'yutupela'
(c) tu + ELE2 + ELE1 = vós3 = 'yutripela'
(d) tu +ELE2 + ELE1a + ELE2a = vós3 = 'yupela'
(e) tu = 'yu'

As formas que as gramáticas tradicionais chamam de "pronomes de terceira pessoa" também são mais complexas do que as das línguas ocidentais. A forma simples "ele/a" é representada como em (de "them"). Juntando ELE1 com ELE2 (12c) temos o tupela tok pisin. Se a esses dois acrescentarmos mais um ELE (ELE1a ou ELE2a), temos tripela, como em (12f) e (12g), respectivamente. Juntando-se mais de um ELE, de qualquer tipo como em (12h), teremos ol (de "all"). Para mais detalhes sobre os pronomes no tok pisin, pode-se consultar Laycock (1970) e Siegel (s/d), entre outros.

(12)
(a) ELE1 = ele1 = 'em'
(b) ELE2 = ele2 = 'em'
(c) ELE1 + ELE2 = eles1 = 'tupela'
(d) ELE1a + ELE1b = eles2
(e) ELE2a + ELE2b = eles3
(f) ELE1 +ELE1a + ELE2 = eles4 = 'tripela'
(g) ELE2 + ELE2a +ELE1 = eles4 = 'tripela'
(h) ELE1a + ELE1b +ELE2n + ELE2a + ELE2b + ELE2n = 'ol'
etc.

Enfim, ecolinguisticamente, não há nenhum mistério nos pronomes pessoais. Quando os procuramos onde eles naturalmente estão, encontramo-los como eles realmente são. No caso, eles são os actantes e os circunstantes do ato de interação comunicativa, que se dá no cenário da ecologia da interação comunicativa.
Deve haver línguas entre as mais de seis mil que existem no mundo alguma ou algumss que lexicalizem outras possibilidades. Essa é uma pesquisa que valeria a pena ser feita, mas que demandaria uma grande equipe internacional de investigadores que dispusesse de um generoso financiamento. De qualaquer forma, aqui ficam essas poucas notas como sugestões para investigações mais pormenorizadas sobre os pronomes, da perspectiva da ecologia da interação comunciativa.

Referências bibliográficas
Ali, Said. 1969. Gramática secundária da língua portuguesa. São Paulo: Edições Melhoramentos, 8a ed.
Arnauld & Lancelot. 1969. Grammaire générale et raisonnée. Paris: Republications Paulet (1a ed., 1660).
Coseriu, Eugenio. 1967. Teoría del lenguaje y lingüística general. Madri: Editorial Gredos, 2a ed.
Couto, Hildo Honório do. 2007. Ecolinguística - estudo das relações entre língua e meio ambiente. Brasília: Thesaurus Editora.
Cunha, Celso. 1970. Gramática do português contemporâneo. Belo Horizonte: Editor Bernardo Álvares.
Fernandes, I. Xavier. 1940. Estudos linguísticos. Porto: Editora Educação Nacional Ltda.
Laycock, Donald C. 1970. Materials in New Guinea Pidgin. Canberra: Pacific Linguistics.
Peirce, Charles Sanders. 1972. Semiótica e filosofia. São Paulo: Editora Cultrix.
Roncarati, Cláudia. 2010. As cadeias do texto - construindo sentidos. São Paulo: Parábola.
Saussure, Ferdinand de. 1983. Curso de linguística geral. São Paulo: Editora Cultrix, 5a ed.
Shannon, Claude E. & Warren Weaver. 1949. The mathematical theory of communication. Urbana: University of Illinois Press.
Siegel, Jeff. s/d. Tok pisin. http://www.hawaii.edu/satocenter/langnet/definitions/tokpisin.html (28/3/2012)
Timbane, Alexandre António. 2014. Análise sociodiscursiva da “saudação” do grupo étnico-linguístico tsonga de Moçambique. Revista educação, cultura e sociedade v. 4, n. 2, p. 90-105. Disponível em:
http://sinop.unemat.br/projetos/revista/index.php/educacao/article/view/1724/1239  (26/10/2017).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Por uma ecolexicografia

Nota: O texto a seguir esteve disponível na internet por algum tempo (ver URL no final desta postagem). Depois, foi retirado. Por isso, reproduzo-o. Independentemente de seu valor teórico e de sua qualidade, decidi incluí-lo aqui porque apresenta uma proposta de 'ecolexicologia' e 'ecolexicografia'. Quem se dedica à Ecolinguística é bom que dê uma olhada nele (Hildo Couto).
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POR UMA ECOLEXICOGRAFIA, por Manoel Soares Sarmento



Resumo: Esta é uma proposta de criação de dois novos campos da Linguística Aplicada e, mais especificamente, da Ecolinguística, a saber: a Ecolexicologia e a Ecolexicografia. Este artigo concentra-se em delinear os contornos ontológicos, epistemológicos e metodológicos respeitantes à Ecolexicografia.



Palavras-Chave: Estudos lexicais e terminológicos; Ecolinguística; Ecolexicologia; Ecolexicografia.



Abstract: This paper aims at presenting two new fields of Applied Linguistics, and specifically of Ecolinguistics, namely, Ecolexicology and ecolexicogaphy. It proposes ontological, epistemological and methodological bases to create Ecolexicography.



Key Words: Lexical and terminological studies; Ecolinguistics; Ecolexicology; Ecolexicography.



Este artigo procura fornecer alguns dados de uma pesquisa que vem sendo realizada na Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Campus de Jequié, assunto também de um estágio de Pós-Doutorado realizado no Centro de Estudos Lexicais e Terminológicos - LEXTERM, do Departamento de Linguística, Línguas Clássicas e Vernácula, da Universidade de Brasília. O intuito básico é apresentar uma subárea da Ecolinguística, a saber, a ECOLEXICOGRAFIA, proposta primeiramente à Universidade de Graz, na Áustrìa, no ano de 2000 (cf. Sarmento 2000) e, posteriormente, dada a conhecer no livro Colourful Green Ideas (2002), da Peter Lang Verlag, Berna, Suíça, bem como na sociedade Terralingua, no seu boletim Langscape, número 20, aqui já bem mais aumentado. Seguindo, foi apresentada - juntamente com a proposta de criação de urna subárea congênere, a ECOLEXICOLOGIA -, ao Centro acima citado. A partir dos formadores destas subáreas, depreende-se que estou atuando no campo das inter-relações entre Linguística (léxico, "teorização sobrei" e elaborar a obra", ao qual se juntam a pragmática e a semântica) e Ecologia (a metáfora do ecossistema).
Revelo orgulho, alegria e compromisso ao assumir a proposta de criação desses dois subcampos da ecolinguística. Orgulho, alegria e compromisso porque nossa ciência tem de se ver às voltas seriamente, na realização de suas discussões e tarefas, com as palavras que usamos, a respeito dos efeitos que elas causam, quais as suas potencialidades para criar, enfraquecer, fortalecer, manter e destruir:
- o sistema interno da língua;
- a rede ecológica do ser humano, no que tange ao biológico, ao social, ao psicológico etc.;
- a rede ecológica dos outros organismos;
- e daí a uma rede mais ampla, a saber, do meio ambiente e planetária.
Os novos subcampos propostos foram previstos em um texto que enviei à Universidade de Graz, como já escrevi, durante o Simpósio Österreirische Linguistiktagung 2000: 30 Jahre Sprache und Ökologie. Nos abstacts apresentados ao Simpósio, trataram-se as seguintes ecopalavras: "ecológico', "ecologicamente", "Ecologia", "Ecolinguística", "ecossistema", "eco-alfabetização", "ecossemântiça", "ecogrupo", "não-ecológica", e dentre elas aparecem "ecolexicológico" e "Ecolexicografia", propostas para tratarem com palavras e suas relações com o meio ambiente, na acepção de "meditar sobre" e "gerar tecnologia para", que corespondem enquanto parentesco epistemológico aos estudos lexicais e terminológicos, desenvolvidos pela Lexicologia e pela Terminologia, bem como pela Lexicografia, pela Terminografia, pela Terminótica" entre outras. Neste artigo concentrar-me-ei mais detidamente na Ecolexicografia.
Apresentando algumas asserções que venho propondo, diria o seguinte:
1. Em primeiro lugar, parece-me que a Ecolexicografia tem de ser trabalhada a partir de uma perspectiva mais ampla que envolve uma Nova Mentalidade por parte de nós falantes do português e de outras línguas. Este "mais ampla" configura-se como uma tomada de posição a fim de realizar uma reviravolta nas nossas concepções quanto ao nosso lugar enquanto indivíduos e espécie pertencentes ao Planeta Terra, considerando a fundamentabilidade de tudo, à luz da plataforma da Ecologia Profunda, da ecofilósofo norueguês, Arne Naess. O pensamento dele pode ser compreendido como "relacional, não voltado apenas ao humano". Ou seja, uma Ecologia Rasa que trata apenas com coleta de dados, descrição e sua interpretação e útil - mas não suficiente, se não houver uma transformação íntima efetuada por nós humanos no campo pessoal, social, acadêmico, politico-financeiro etc. Envolve vivenciarmos uma tentativa de superar a separatividade que grassa na nossa cultura e que atua profundamente nas nossas atitudes internas e externas. Disso é exemplo um paradigma reducionista, mecanicista. Claro que ajuda em certos segmentos dos lidares humanos, mas tem-se mostrado que vem causando uma série de prejuízos, hierarquias perniciosas, domínios de uns sobre os outros de forma danosa, para não falar de um sentimento de esfacelamento, de se perceber e se sentir como "separado de". Esta é a razão pela qual advogo uma perspectiva integrativa, relacional, traduzível,por exemplo, nas concepções sistêmica, ecológica (e ecologizante) e holística. As concepções sistêmica e ecológica proveem um pano de fundo científico para se realizar essa mudança; a holística provê urna posição de cunho filosófico, e a concepção ecológica tradicional resgata aquilo que o Conhecimento Ecológico Tradicional vem cotidianamente realizando. Venho propondo um "ser-um-com", "ser-o", mais do que ser-parte-de".
2. Em segundo lugar, postulo o fato de que a filogenia da nossa espécie aponta para o domínio que adquirimos com o fogo, com a roda, com os artefatos, com a linguagem e com o pensamento e daí gerarmos dois caminhos: um para a sobrevivência e outro para a extinção. Este último é entendido em termos das hierarquias e preconceitos que erigimos - das quais o patriarcado, a submissão de um povo por outro, a extinção de espécie causada por nós, a exploração desenfreada das chamadas "riquezas/recursos naturais", em suma, uma dilapidação do Planeta, é testemunha. Mas mais ainda: há uma constante dilapidação da chamada "natureza humana", sendo que a espécie Homo sapiens sapiens, que é também Homo habilis e Homo faber, Homo loquens se torna, em muitos casos, Homo demens. Estes são ensinamentos a mim dados pela Ecologia Social, de Murray Bookchin, bem como pelas
fascinantes pesquisas paleontológicas da família Leakey.
3. Em terceiro lugar, percebemos que o próprio sistema linguístico, quando pensado e, um sistema autocontido, de per se, em muitos casos, sofre com a quebra de tais "elos integrativos" internos e reflete isso para o Planeta como um todo. Os exemplos de discurso que maximizam ações não-ecológicas são prova disso. A vertente dos estudos linguísticos chamada "formalista", útil como possa ser, tem enfatizado a língua como um fenômeno autocontido, de per se, diferente da perspectiva funcionalista, visto que enxergam a língua como uma semiose virtual que se atualiza numa semiose realizada num dado contexto de situação.
Mas, o que desencadeia o pensamento de postular uma Ecolexicografia?
A bem dizer, o surgimento ela Ecolinguística. Tomem-se alguns dados:
A Ecolinguística é uma subárea da Linguística, especificamente da Linguística Aplicada, que trata com as inter-relações entre língua e meio ambiente. Por entender que: "Ecolinguistics is a new branch of linguistics that investigates the role of language in the development and possible solution of ecological and environmental problems. [and] for this reason, some ecolinguists use the concept of the eco-system metaphorically to refer to the language world systems that they analyse with the help of concepts transferred from biological ecology", como nos lembra Rosalyn Frank, do Instituto de Estudos Bascos.
A Ecolinguística deve ter sido motivada por diversos discursos governamentais, religiosos, empresariais, burocráticos, filosóficos, científicos, do dia-a-dia, que incessantemente utilizam de informações que maximizam a destruição, a opressão, falta de felicidade, extinção de espécies, intenção de línguas, poluição, corrupção, empobrecimento. Um dos casos que este artigo sustenta - e a pesquisa como um todo - é que corremos riscos ao dizermos a respeito da Língua Portuguesa: "falar errado", "vícios de linguagem", "falante nativo" não sabe a sua língua", "a língua mais difícil do mundo" e tantas outras hierarquias de dominações e separações, tantos outros preconceitos, erros lógicos.
Mas talvez essa subárea da nossa ciência tenha sido educada e nutrida por Copérnico, quando ele vê que o nosso Lar e não mais do que um pequeno - maravilhoso - Mundo em um dos cantos da nossa gloriosa Galáxia, a Via Láctea. E, como tal, algo tem de ser feito para preservá-lo. Ou quando Descartes propõe uma nítida separação entre corpo e mente - e isso é uma batalha que os ecolinguistas encaram a todos os momentos, visto que essa filosofia profundamente evoca a possibilidade de negar as realizações mais caras do campo, a saber: a tentativa de pensar a língua humana como um fenômeno que se inter-relaciona com o meio ambiente. Essa negação pode ser pensada como uma disjunção entre seres humanos, mente, pensamento, língua, cultura e sociedade, corpo e o meio ambiente - e isso pode ser exemplificado pelo fato de pessoas ainda permanecerem insistindo em uma Ciência "neutra", "racional", "lógica", "objetiva", "matemática", como se aquele/aquela que gera tal conhecimento não fosse humano/humana em seu sentido mais profundo. Talvez tenhamos de nos lembrar de Charles Darwin e de São Francisco de Assis, quando visualizam nos pássaros só céu, no gado que está no campo, nas florestas cobertas de verde e no ar que respiramos, nossos irmãos e nossas irmãs. E temos ainda muito trabalho a desenvolver ao entendermos os problemas criados pelo especiecismo, crescimentismo, racismo, antropocentrismo etc., disseminados no Mundo por uma cultura negativa do -ismo:, como Michael Halliday advertiu (Cf. Fill 1998).

Surgimento Localizado da Ecolinguística
Os pontos escritos anteriormente podem ser entendidos como uma tentativa de delinear um possível contorno para as ideias e eventos que devem existir previamente, a fim de trazer à luz a Ecolinguística. Contudo, em termos de localização no tempo, sua origem pode ser traçada na década de 70 quando Einar Haugen (Professor Emérito de Estudos Escandinavos) publica A Ecologia da Língua, na Stanford University Press, propondo tratá-la como um fenômeno ecológico, a saber, tratando-a como interações entre qualquer língua e o meio ambiente. Mais tarde, em uma conferência em Tessalônica, Grécia, Michael Halliday admoestou os/as linguistas a não ignorarem o papel de seu objeto de estudo e o crescimento de problemas ambientais, como Fill mais uma vez enfatiza no seu texto Ecolinguistics - State of the Art 1998. Mas não apenas no âmbito da Ciência, da Filosofia etc. se questionam essas coisas, o nosso dia-a-dia está cheio de tais indagações.
Porém, uma questão historiográfica impõe-se para discussão. Autores há que remetem o surgimento da Ecolinguística para muito antes da década de 70 com Haugen. Remete-se, por exemplo, a Sapir e Whorf ou a John Trim, em 1959, mas muito antes ainda.

Alguns Alvos de Investigação da Ecolinguística
Alguns alvos de investigação da Ecolinguística são:
- Tratar a língua em face aos sistemas biológicos diversos e similares.
- Realizar a crítica da língua, tanto em termos do par, língua e meio ambiente, bem como de uma crítica ao sistema interno da língua. Assim, o trabalho envolveria os estratos comumente discutidos da língua humana: o léxico, a morfologia a sintaxe, a semântica etc.;
- Ensinar eco-educação, ou seja: propiciar uma educação que se volte às questões ecológicas:,
- Realizar teorização do campo.
Naturalmente o escopo desse excitante campo de estudo engloba ainda:
- os problemas respeitantes às línguas em situação de perigo no Mundo;
- o problema crítico que envolve o/a último/a falante de uma língua;
- criação, uso, revitalização e morte de uma língua;
- a questão do preconceito linguístico;
- a questão do imperialismo linguístico;
- o planejamento linguístico;
- elaboração de textos, glossários etc. que tratem com o problema da língua e do meio ambiente;
- as questões que envolvem língua e paz;
- as questões sobre Ecolinguística e ensino;
- a questão da ecologização das línguas e suas contribuição para as Mentalidades;
- difusão e aplicação da Declaração dos Direitos Linguísticos.

De que Trata a Ecolexicografia, Afinal?
Neste momento, diria que a Ecolexicografia tanto pode ser uma ciência quanto uma técnica. No primeiro caso, ela cuida de teorizar sobre a obra ecolexicográfica; no segundo, ela traça os contornos macroestruturais e microestruturais da obra ecolexicográfica e produz tais obras.
A Ecolexicografia não se confunde com a reflexão e o labor lexicográficos empreendidos até o presente momento. Não se confunde, mas também não pode se afastar de tais reflexão e labor, visto que, como venho falando, não proponho uma cisão entre urna e outra. Proponho, sim, um alargamento dos estudos lexicais. E a proposta ganha corpo quando postulo as seguintes proposições:
PRIMEIRA PROPOSIÇÀO. Pensada em termos de dicionários, a Ecolexicografia não é dicionário de Ecologia, nem dicionário "comum" sobre fatos ecológicos. É uma reflexão e um Iabor que demandam a utopia sobre a qual venho falando. Relembrando:
Utopia PARA A SOBREVIVÊNCA INDIVIDUAL E PLANETÀRA.
E essa utopia toma-se clara ao propor a microestrutura do verbete ecolexicográfico, o qual não trata apenas com definição e abonação. O procedimento heurístico que norteia os verbetes ecolexicográficos é o seguinte:

Figura l. Microestruturua do verbete ecolexicográfico.

Nesta configuração a base da abra ecolexicográfia reside nos:
EFEITOS + RESULTADOS LÓGICOS, e isto remete-me à questão da SOBREVIVÊNCIA A que antes aludi, tema que vem me acompanhando desde 1994.
Os EFEITOS compreendem:
- Criativo (EC)
- Mantenedor (EM)
- Fortalecedor (EF)
- Enfraquecedor (EE)
- Destrutivo (ED)
E os RESULTADOS LÓGICOS compreendem, por exemplo, diversas palavras e expressões da Língua portuguesa, sendo que a minha utopia propor uma ecologização das "não-ecológicas". Vejam-se:
BINÁRIO DE OPOSTOS do tipo "lógica formal", sim, não:
Ecológico e exemplos:
- Interconexão hemisférica
- isoglossas
- Biodiversidade
- Individualidade
- Dialetos
- Aceitabilidade na língua
- Advocacia em defesa das línguas
- Filhos e filhas da Terra
- Rio de Heráclito
- Serenidade
- Paz
- Ser-um-com-o
- Tudo está ligado
Não-ecológico e Exemplos :
- Ferrugem cósmica
- Falante nativo não fala bem sua língua
- Quem são teus pais? ("Quem são tuas mães?")
- Americanos e estadunidenses
- Individualismo
- É negro e é...
- Animais
- Preconceito
- Relógio como metáfora de organismo
- Terra
- Universo
- Ambiente natural enquanto recurso
- Classismo
- Dualismo
- Apenas as pessoas educadas falam corretamente.

TERNÁRIO DE CONFLUÊNCIA, do tipo dialético:
Ecológico ou não-ecológico ao mesmo tempo, implicando o fato de que nem sempre a lógica de opostos é viável e requer-se urna lógica que engloba o "sim", o não e o talvez". Por exemplo, a palavra "lixo" não pode ser classificada como ecológica ou não ecológica; apenas as ações que dela advêm podem fazer uma classificação.
GRADIENTE, implica uma gradiência, uma escalaridade do tipo: "muitíssimo, muito, pouco, pouquíssimo, etc".
Grediência +++ <-> - - -
DIALÓGICOS, implica uma conexão do tipo "piscar um olho e mexer nas estrelas", muito bem ilustrado nas pesquisas sobre condições atmosféricas da Teoria do Caos, ou pelos estudos de não-localidade da Física Quântica.
SEGUNDA PROPOSIÇÃO. De outro modo, Ecolexicografia não se confunde com Terminologia ou Terminografia. Aquela trabalha com a noção de "Iíngua comum", ou seja, "não linguagem de especialidade", mas guarda claro parentesco com algo a que venho chamando, a partir da influência sobre mim exercida peio curso de Lexicografia e Terminografia, oferecido pela Profa Dra." Enilde Faulstich, da Universidade de Brasília, uma Ecoterminologia e uma Ecoterminografia. Se se aceita o fato de que é possível haver uma ecometalinguagem (por exemplo, uma ecomorfologia como postulada pela Escola de Estados Ecolinguísticos de Odense, na Dinamarca e que eu próprio falo em termos de ecossílaba, ecotexto, ecoagente, ecofone, ecopalavra etc.) ou ainda algo do tipo "que pode ser encarado por uma Ecoterminologia", por exemplo: cogito ergo sum, da Filosofia "ambientalismo profundo", na Ecologia, "análise crítica do discurso", na Linguística, que "ecofeminismo", em Política etc. e de que a "linguagem de especialidade" também pode ser encarada do ponto de vista da microestrutura antes aventada, então haveria um limite relativamente claro entre os estudos lexicais e terminológicos, de um lada, e entre as estudos ecolexicais e ecoterminológicos, de outro, mas com muitos pontos de contato. Um deles é a microestrutura do verbete.
TERCEIRA PROPOSIÇÃO. Outro ponto, sobre o qual já venho tocando, é a respeito dos significados que a base eco assumiu ao longo do texto. Não implica apenas o "lado positivo", mas toda a lógica que permeia as minhas propostas. Volto mais uma vez às lógicas atuantes e aos efeitos. Assim, eco não tem o significado apenas positivo de "contribui para a sobrevivência individual e planetária". Eco, na verdade, é um termo neutro para tratar com as lógicas e os efeitos antes aduzidos.
QUARTA PROPOSIÇÃO. Ainda diria que os dados de corpus com os quais a EcoIexicografia deve se ocupar têm de trazer implícito algo do tipo "efeitos eco", "sobrevivência". Se não selecionados a partir desse viés não podem ser observados, descritos e explicados ecolexicológica e ecoleixicograficamente. Ou seja, há uma hipótese prévia a circunscrever o âmbito de ação das subáreas.
QUINTA PROPOSIÇÃO. A Ecolexicografia não abandona os estudos lexicográficos (para não dizer Iexicológicos) empreendidos até agora: toma-os e alarga ar suas fronteiras ao propor uma microestrutura que se constrói, além daquele tradicional, nas LÒGICAS e EFEITOS, sobre os quais falei anteriormente.
SEXTA PROPOSIÇÂO. A tarefa da Ecolexicografia não é apenas observar, descrever e explicar palavras e expressões vistas a partir do viés eco, mas tomar posição sobre os efeitos e resultados lógicos que elas desempenham. Ou seja, estamos trabalhando não apenas com o significado de palavras e expressões, mas a questão dos seus usos, o que nos remete imediatamente ao campo da Pragmática Em suma, esta subárea propende mais naturalmente ao campo semântico e pragmático do que ao morfossintático e fonológico. Ou seja, é o estrato lexical encarado em termos de significados, usos e efeitos. E, se pensarmos que podemos contribuir com a discussão a respeito de ecologização de línguas humanas, ao nos situarmos claramente sobre os efeitos que a língua causa, então estamos no campo de dizer: "Isso é assim. Isso é assado. Faça. Não faça".

Questões Formuladas pela Ecolexicografia
As seguintes questões são formuladas pela Lexicologia e pela Lexicografia:
- Qual o papel das palavras no nosso Mundo, bem como: Como uma palavra pode criar, manter ou destruir um Mundo?
Por extensão, as seguintes questões são cabíveis:
- De que modo podem contribuir a Lexicologia e a Lexicografia vigentes para delinear os entornos da Ecolexicologia e da Ecolexicografia?
- De igual modo as nossas inúmeras teorias linguísticas.
- De igual modo, os outros conhecimentos intimamente ligados às duas áreas.
A partir do que seja uma "palavra" e uma "expressão", a Ecolexicologia se questionaria a respeito da possibilidade teórica e prática da existência de uma "ecopalavra" e de uma "eco-expressão" e também faria questões do tipo:
- Corno pode uma palavra ecologizar uma língua e contribuir para as Mentalidades?
- Qual o papel de uma ecopalavra de nosso Mundo e quais são as suas potencialidades para criar, manter, fortalecer, enfraquecer e destruir? E ainda:
- Uma ecopalavra pode vir a enfraquecer e destruir? Elas são sempre conduzentes à sobrevivência do nosso Mundo?
sendo que adviria daí outra pergunta:
- É possível um jogo textual do tipo "palavra - ecologizar", ou o termo verbal exige necessariamente uma "ecopalavra"?
Voltando-me às questões formuladas pela Ecolexicografia e pela Ecolexicologia, diria:
- Como alguém pode contribuir para promover palavras ecológicas?
- O que devem fazer os/as ecolexicólogos/as e ecolexicógrafos/as (e outros/as) com aquelas palavras que desempenham um papel não-ecológico no nosso Mundo?
- Deve haver algum tipo de monitoramento de palavras? Ou seja, as áreas devem apontam para uma Axiologia, uma tomada clara de posição frente àquilo que é "ecológico" ou "não-ecológico"? Quanto de normativo as áreas podem (devem) ser?

Resumo metodológico: Paradigmas, Teorias, Métodos, Técnicas e Semióticas Respeitantes à Ecolexicografia
PARADIGMAS GERAIS (PG}
1. Concepção Dialógica, e dai a Concepção Integrativa (DI)
2. Concepção Política, e daí a Concepção Vitalizadora (para a Sobrevivência), que caminham lado a lado com a Concepção Educacional e com uma Concepção sobre as Mentalidades, e daí a Proposta de Ecologização da Língua Portuguesa (PVEM)
APORTES NO CONHECIMENTO HMANO (ACH)
a) Linguísticos - Linguística Geral, Ecolinguística, Estudos Lexicais e Terminológicos (LING)
b) Ecológico - Ecologia Geral (ECO)
c) Integrativos - Multirreferencialidade, Sistemas, Dialógica, Holística (INITE)
d) Filosófico - Identidade, Alteridade, Dialética, Dialógica (FILO)
e) Político - Ecologia Social, Ecologia Profunda, Educação, Mentalidades (POLI)
f) Conhecimento Tradicional (TRAD)
CLÁSSIFICADORES ECOLICOGRÁFICOS
1. obra ecolexicográfica (SELG)
2. Palavras e expressões
SEMIOTIZADORES ECOLEXICOGRÁFICOS (SELG)
a) Definição (DEF)
b) Usos (USO)
c) Ações (AÇ)
d) Estados
e) Processos
f) Fenômenos
g) Sentimentos
h) Sensações
i) Efeitos (EFE)
CLASSIFICADORES LÓGICOS (CL)
a) BINÁRIO DE OPOSTOS (LBO)
EcoLógico (Ec)
Não-ecológico (N)
Ecologizante
Não-ecologizante
b) TERNÁRIO DE CONFLUÊNCIA
Ecológico e não-ecológico (EcN)/Ecologizante e não-ecologizante:
- - - Ação linguisticamente-dísparada (LD)
- - - Ação culturalmente-disparada (CD)
c) GRADIENTE
Gradiência +++ <-> ---
d) DIALÓGICO
EFEITOS
- Criativo (EC)
- Mantenedor (EM)
- Fortalecedor (EF)
- Enfraquecedor(EE)
- Destrutivo (ED)
ESPERA DAS VIVÊNCIAS E AÇÕES HUMANAS (EVAH)
- Científica
- Filosófica
- Artística
- Espiritual
- Emocional
- Etc.

Notas
[1] Desejando-se examinar algumas pesquisas ecolinguísticas, favor remeter ao seguinte endereço: <......>
[2] O diretório do <...> sobre ecologia profunda é extremamente útil. Confira-se: <...>
[3] Uma bibliografia compreensiva da trajetória científica da família Leakey pode ser encontrada na Internet no site <...>
[4] <...>
[5] Reporto-me neste momento a uma resenha feita por Kevin Hutchings, da University of Southern British Columbia, sobre o livro Green Writing: Romanticism and Ecology, Nova lorque, 2000, da autoria de James McKusick. Este é pioneiro nas discussões sobre as questões ecológicas elicitadas pelo movimento dos românticos. E o ponto interessante é que o autor cita como "precursores, progenitores, pensadores proto-ecológicos, ecologistas profundos" do movimento ecológico moderno os nomes do período romântico estadunidense e europeu. Cf. <...>. Porém, bem sabemos como o Romantismo, não só naqueles países, mas aqui no Brasil também prestou culto à chamada Natureza: o bucólico, o puro, o intocado, o selvagem, o inocente ... Continuando esta ligeira incursão histórica, v em do Monterrey Institute of International Studies, na pessoa de Leo van Lier:

"Early references to an ecological approach can be found in JohnTrim (1959) and[ Einar Haugen (1972). Haugen's list of concerns for an ecological linguistics is very broad, encompassing linguistic demography, language shift, dialectology, sociolinguistics, ethnolinguistics, and much more. Other researchers have continued this broad range of work (see Mühlhäusler 1996 for an overview). Recent publications include Makkai (1993), Mühlhäusler (1996), and Skutnabb-Kangas's monumental opus (2000). In most recent work there is a strong critical-theoretical and human rights perspective, focusing on language death, Linguistic genocide, Iinguistic human/educational rights, and language diversity. Other work analyzes the way the environment is talked and written about in the medìa, politics and business {see further the University of Graz Ecolinguistìc Website [<...>] and a number of contributions to FiIl and Mühlhäusler 2001).
A number of linguistic theories share family resemblances with ecological linguistics in several respects, including Harris's international linguistics, Halliday's systemic-functional grammar and social semiotics, and the work of William Hanks. In addition, work ìn situated cognition (Lave, Wenger), discursive psychology (Harre, Shotte, Kalaja), the psychology, philosophy and ecology of self (Neisser, Rosch, Tomasello, Gallagher and Shear)."
[6] Desejando-se consultar a Declaração, favor buscar o seguinte endereço eletrônico: <...>. Neste último temos a Declaração em alemão, aragonês, asturiano, bielorrusso, galego, japonês, nahuatl, russo, zapoteca, galês e inglês - não em português, o que me parece demandar por parte dos interessados e das interessadas em políticas linguísticas, a sua tradução. Já o site <...> apresenta-nos uma revisão sobre a Declaração e oferece-nos a possibilidade de lê-la em catalão, francês, inglês e espanhol.
[7] Isso basicamente começou em uma conferência que proferi, em 1994, na abertura de um Curso de Mestrado em Enfermagem, concentração em Saúde Pública, no Departamento de Saúde da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia, Campus de Jequié, em convênio com a UNIRIO. A conferência teve o título de Diálogo e Sobrevivência. Por esse tempo começo a levantar um corpus em Língua Portuguesa que me parece favorecer um fenômeno que chamo "ecologização ou desecologìzação da Língua Portuguesa". Hoje ele contém mais de 600 exemplos.
[8] Bang, J. Chr., J. Døør et al. (eds.). Language and Ecology. Eco-Linguistics. Problems, Theories and Methods. Odense; Bang, Jørgen Chr, & Jørgen Døør. "Eco-Linguistics: a Framework", in AILA 1993, 31-60; Døør, Jørgen &, Jørgen Chr, Bang. "Language. Ecology and Truth - Dialogue and Dialectics" in Fill (ed.) 1996, 17-26.

Referências bibliográficas
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Bookchin Murray. The Philosophy of Social Ecology. Montreal: Black Rose Books, 1990.
Faulstich, Enilde. Base Metodológica para Pesquisa em Socioterminologia. Brasília: UnB, 1985.
Fill, Alwin et al. Colourful Green Ideas. Bern: Peter Lang Verlag, 2002.
_______. "Ecolinguistics - State of the Art 1998". In AAA - Arbeiten aus Anglistik und Amerikanistik, Band 23, Heft 1. Tübingen: Gunter Narr Verlag, 1998.
Lamberti, Flávia Cristina Cruz. Da perspectiva tradicional à variação em terminologia. Dissertação de mestrado, Brasília, UnB.
Leakey. Charles. A evolução da humanidade. Brasília: Editora da UnB.
Oliveira, Ana Maria Pinto Pires, Aparecida Negri Isquerdo (org). As ciências do léxico: Lexicologia, Lexicografia,terminologia. Campo Grande: (UFMS, 2001);
Rocha, Sandra Lúcia Rodrigues. De uma abordagem funcionalista do léxico do grego antigo: para uma explicação lexicográfica. Dissertação de mestrado, Brasília: UnB, 2000.
Sarmento, Manoel Soares. "Ecolexicography: words and expressions we should live by". In Österreichische Linguistiktagung 2000: 30 Jahre Sprache und Ökologie. Graz: Graz Universität, 2000.
_______. "Ecolexicography: ecological and unecological words and expressions". In: CoÍourful Green Ideas. Fill, Alwin et al. Bern, Frankfurt, New York, London, Paris, Wien: Peter Lang Verlag, 2002.

(Confluências - Revista de Tradução Científica e Técnica, no 0, Maio de 2004, pp. 119-130, no endereço: